Por Bernardo Guimarães (1883)
Foi Moraes quem primeiro rompeo o silencio.
Senhor Conrado, — disse elle com desdenhosa e impertinente altivéz, — sei muito bem quem era essa mulher, que foi a primeira senhora de Rozaura, e que hontem falleceo. Tambem já houve quem esta manhã me desse noticia da scena, que vossa senhoria preparou, e que de facto não foi mal representada.
Em qualquer outra occasião Conrado teria repellido com energia e dignidade esta tão grosseira e insultuosa insinuação ; mas naquelle delicado transe lhe era mistér levar ao extremo sua paciencia e longanimidade. Uma ruptura logo no começo daquella conferencia podia transtormar todos os seus planos de accommodação pacifica e honrosa, e portanto deixou passar sem resposta as palavras injuriosas de Moraes.
Não contesto, —— continuou este, — que essa mulher foi quem vendeo Rozaura; mas vendeo-a como sua legitima senhora; posso contestar, contesto e contestarei sempre que Rozaura seja livre, por nascimento, como filha de mulher livre. Merece ser livre, é verdade; mas a mim compete dar-lhe a liberdade, quando me approuver e julgar conveniente. Todo o povo de S. Paulo conhece muito bem quem foi essa Nha-Tuca. Foi uma boa e honrada senhora, que ha muitos annos por desgraças e contratempos, que lhe sobrevierão, cahio na miseria e perdeo o juizo. Caduca e alienada, como estava, com mais de oitenta annos de edade, e de mais a mais já nas vascas da morte, que valor póde ter a sua declaração, embora feita perante tres ou mais testemunhas
— Isso é que é verdade, — ponderou o major.
— Isso é que nada tem de verdade, replicou Frei João com voz sonora e firme; — minha deposição alli está firmada com juramento, e mercê de Deus nunca profanei o sagrado habito que visto, com um juramento falso ou mal considerado. Tambem não sou tão destituido de penetração e intelligencia, que não saiba discernir quem está ou não em estado de demencia, e posso asseverar e jurar, si necessario for, que essa mulher morreo no gozo perfeito de sua faculdades intellectuaes.
— Mas, senhor padre, — replicou Moraes, — todo o homem está sujeito ao erro ; Va Rma bem podia enganar-se.
— va Sa é que está perfeitamente enganado a respeito dessa mulher. Nha Tuca nunca foi essa boa e honrada mulher, que va Sa pensa. A principio passou por tal; mas ha muito tempo o povo está no conhecimento de suatriste e vergonhosa chronica, das torpezas, embustes e pelver. idades que praticou para enriquecerse. Além de sua propria confissão, ahi está a voz publica, que ha ito te já a tinha condemnado. É portanto irrecusavel o documento, que o meu amigo acaba de ler.
— Vel-o-hemos em juizo,— retorquio Moraes com arrogancia.
— Não ha de ser preciso, — exclamou Conrado levantando-se com indignação, — quero poupar-lhe esse trabalho, senhor Moraes. — A validade desse documento vae ser confirmada aqui mesmo e sem mais demora.
Frei João lançou um olhar a Conrado, e fézlhe um gesto negativo, como dando-lhe a entender que ainda se devia tentar algum esforço para trazer aquelles homens a um accordo razoavel. Conrado o comprehendeo o calou-se.
Frei João levantou-se então, e com ar grave o solemne :
Não posso comprehender que poderoso motivo leva Vossas senhorias a cerrarem os olhos á evidencia, e a recusarem-se com tanta pertinacia á pratica de uma acção nobre e generosa, que não é mais do que o cumprimento de um dever de justiça e de humanidade, que em nada os prejudica. O meu amigo possüe um documento incontestavel, que ha pouco acabámos de ouvir ler, e que jamais, quer em juizo como fóra delle, poderá ser infirmado. Além disso allega um direito sagrado: a paternidade; o senhor Conrado é pae de Rozaura. Por fim offerece-se para indemnisalos do valor por que comprárão a menina, e está prompto a dar mais ainda, si o exigirem. Por cumulo de generosidade, o meu amigo quer evitar os meios judiciarios para arredar um escandalo, cujo peso tem de recahir todo sobre quem o quer provocar. A justiça, a humanidade, a religião e a honra exigem que vossas senhorias entreguem a menina 19h ao senhor Conrado, restituão a filha a seu pae.
Muitas outras cousas disse o respeitavel carmelita em linguagem severa, mas commedida, e com a eloquencia de um verdadeiro apostolo de Christo; não conseguio porém arrancar aquelles dous homens de sua cega obstinação.
Adelaide pallida e anniquilada ousou tamborn balbuciar algumas palavras em favor da pretenção de Conrado ; mas apenas havia come— gado a fallar, um olhar terrivel do marido e um gesto ameaçador do pae a fizerão emmudecer.
— Reflictão bem, meus senhores, — disse ainda o carmelita; —- olhem que com sua obstinada recusa vão dar um triste e escandaloso desfecho a um negocio, que bem podia terminar-se entre nós de um modo amigavel e honroso para todos.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.