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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Não sabendo o verdadeiro fim que se propunha a autoridade com a fundação desses contingentes, suspeitaram os povos uma grande leva para fora da terra para combater o estrangeiro. Mas os capitães mores conseguiram desvanecer as suspeitas por meio de afirmações sob palavra de honra. Naqueles tempos a palavra do homem eqüivalia a jurídica obrigação ou a solene tratado, e a honra era digna e eficazmente representada por um cabelo da barba. Hoje, as próprias palavras dos reis tornam atrás, as convenções diplomáticas não passam de ciladas internacionais, a honra tem-se refugiado nos retiros com medo da publicidade, que a expõe a geral pouco caso.

Temos subido muito nas ciências, indústrias e artes, sem exceção da arte de governar; mas, em ponto de honra, em virtudes cívicas, em moral doméstica, a nossa decadência, impossível de recusar, atesta que temos levado a obra da reformação além dos limites pertinentes, e prova a necessidade de transplantarmos das ruínas do passado, onde vicejam esquecidas, algumas plantas modestas, cujas flores purificam o ar com seus perfumes, e cujos frutos formam sangue novo e são.

O capitão mor de Santo Antão, querendo avantajar-se aos outros, antecipouse nos meios de por a mão nos malfeitores.

Sabia ele das assíduas relações do Cabeleira com o velho taberneiro, a princípio por mera suspeita, e posteriormente por informações que tomou de agregados e ordenanças seus, alguns dos quais, de passagem para o Recife, entravam na taberna, bebiam nela o seu grogue, e algumas vezes até ali pernoitaram. No dia fatal, em que o famigerado bandido tirava a vida aos dois meninos, passara por Afogados o capitão mor momentos depois do dobrado delito.

O comércio ilícito do taberneiro, a sua má fama, as suas estreitas ligações com sujeitos mal vistos de todos, principalmente com o Cabeleira, deram-lhe a convicção de que qualquer diligência, que tivesse por fim a prisão dos delinqüentes não poderia surtir efeito se não fosse precedida da prisão do taberneiro. Duas praças de sua confiança foram por ele encarregadas de levarem o velho a sua presença sem que se soubesse para onde nem como ele fora. Alexandre, o negro, e Valentim, o cabra que vimos ceando com Timóteo e que por sobremesa o prenderam foram as tais praças; e a vista do modo como se houveram, cabalmente justificaram a confiança do capitão mor.

Ia amanhecendo quando os três cavaleiros se apearam na porta deste.

As casas do povoado estavam ainda fechadas, e ninguém os viu entrar; o capitão mor que levara a noite em claro, à espera dos seus comissários, foi abrirlhes a porta em pessoa.

Timóteo, posto em confissão, negou tudo ao princípio, saindo-se, com várias evasivas, das redes que lhe lançava o capitão-mor, perito em interrogar.

Quando porém a sua vida ameaçada; quando formalmente se lhe declarou que a sua morte seria inevitável se não auxiliasse com lealdade a ação da justiça na busca dos criminosos; quando o Alexandre de espada desembainhada, e o Valentim de faca na mão, receberam do capitão mor ordem para infligir-lhe a pena última dentro da capoeira próxima; quando se viu arrastado por eles ao teatro onde se lhe destinara o trágico fim que horroriza todo homem — a morte natural, o instinto da própria conservação retomou ao cálculo e às manhas do vendeiro os seus direitos. Confuso e abatido, Timóteo aceitou o odioso papel que lhe foi distribuído naquela grave representação em que importantes interesses e muitas vidas iam correr iminente risco.

Timóteo conhecia todos aqueles lugares onde tinha andado na sua mocidade em dias de feira de gado.

A seca que estava devastando a província tinha-lhe proporcionado ocasiões de conhecê-los melhor. A escassa farinha, os poucos legumes e outros comestíveis que apareciam nas feiras gerais eram logo comprados por atravessadores que os iam revender com usura no Recife. Nos primeiros tempos Timóteo resignou-se a ver passar os produtos no poder dos atravessadores; mas faltando-lhe esses produtos, não só para os expor na sua taverna, senão também para o próprio uso, tomara o acordo de ir pessoalmente um sábado por outro a Santo Antão prover-se do necessário para a semana. Quando o Cabeleira estava na mata, Timóteo ia ter com ele e lhe comprava por quase nada o que muitas vezes tinha custado a vida do pobre roceiro, que deixava mulher viúva e uma infinidade de filhos na orfandade.

Destarte estava ele senhor dos caminhos e carreiras que iam ter à encoberta onde entrava com familiaridade, e donde saía como amigo.

Ele sabia que o Cabeleira se achava na terra por haver estado de passagem na sua taverna, conforme vimos. De tudo informado, o capitão-mor aguardou ansioso a noite seguinte, para dar começo à batida da mata. Com o fim de iludir porém a vigilância dos assassinos e escusar as suas suspeitas, mandou notificar as praças do contingente para que se achassem em um ponto das matas do seu engenho, ao qual cada um devia dirigir-se desacompanhado a fim de não dar na vista de quem quer que fosse.

(continua...)

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