Por Bernardo Guimarães (1872)
Somente Baguari, – que cuidara nessa tarde abrevar-se de cauim e de prazer nos braços da gentil Jupira, – retirado no mais recôndito antro da floresta, arrancava rugidos de amargura de despeito.
Capítulo II
Em seu lado sudoeste a província de Minas termina em um ângulo agudo, em uma vasta nesga de terra encravada entre as províncias de Goiás e de S. Paulo, das quais a separam os dois grandes rios Parnaíba e Rio Grande, que se vão reunir na ponta do ângulo. Nessas regiões, sobre as quais a natureza parece ter entornado a flux todo o cofre de seus favores, trinta léguas pouco mais ou menos acima da confluência dos dois rios, está situado o Seminário de Nossa Senhora Mãe dos Homens, fundado há cerca de cinqüenta anos pelos padres da Congregação da Missão de S. Vicente de Paula em uma vasta e rica fazenda, que lhes deixou em legado um opulento fazendeiro daquelas paragens.
Possui a fazenda matas na prodigiosa uberdade, pingues e magníficas pastagens, por entre as quais um caudaloso ribeirão vai sereno rolando suas águas cor de esmeralda sombreadas por duas orlas de frondoso e verdenegro arvoredo, pelo que decerto lhe deram o nome de Rio Verde. Atravessa as mais formosas e risonhas campinas entrecortadas de viçosos capões e palmares pitorescos, e vai perder-se no Rio Grande, que passa a cinco ou seis léguas do seminário ocultando seu curso entre gigantescas e profundas matas.
Pelas imediações do seminário para logo se foram agregando alguns moradores, e em torno dele construindo-se algumas casinhas dispersas pela campina, de sorte que o lugar chamado Campo Belo, nome que perfeitamente lhe quadra, tornou-se como uma pequena aldeia.
Por aqueles sertões vagavam por esse tempo alguns restos de tribos selvagens vindas de Goiás e Mato Grosso, já algum tanto familiarizadas com a sociedade dos brancos, mas conservando ainda os hábitos selváticos e a independência da vida errante. Os padres fizeram reiterados esforços para chamá-los ao grêmio do cristianismo e da vida social, doutriná-los, e utilizar seus serviços.
Os missionários de S.Vicente, porém, parecem que não são dotados daquele tino e habilidade, de que dispunham os discípulos de Inácio de Loiola para catequizar os indígenas. Por vezes conseguiram reunir na fazenda alguns bandos; mas nunca alcançaram que se sujeitassem por muito tempo a um trabalho contínuo e regular.
Atraídos pelo desejo de obterem algumas roupas, ferramentas, armas e enfeites, acudiam de quando em quando ao seminário; mas no fim de um a dois meses quando muito aborreciam-se do trabalho, entregavam-se à sua natural indolência e, se apertavam com eles, desapareciam, e internavam-se de novo pelas matas do Rio Grande, continuando sua vida nômade e selvática.
Em um desses bandos, que se acolhiam às vezes à fazenda de Campo Belo havia uma caboclinha nova por nome Jurema, não de todo linda, mas um pouco menos feia e mais bem-feita do que as suas companheiras. José Luís, moço branco e bem-disposto, empregado no seminário, agradou-se sumamente dela, e por tal arte soube catequizá-la, que no fim de algum tempo Jurema lhe deu uma linda e viçosa filhinha.
Sabedores do fato os padres induziram José Luís a casar-se com a índia. Batizaram-se ao mesmo tempo a mãe e a filha, e no dia seguinte o pai e a mãe receberam-se em legítimo matrimônio. Jurema trocou o seu nome selvático pelo de Ana, e a filha, que a mãe chamava Jupira, pelo de Maria.
Os índios não punham dificuldade alguma em se deixarem batizar, casar e receber todos os mais sacramentos da igreja; mas isso para eles era um ato sem conseqüência. No dia seguinte esqueciam seus novos nomes, e os esposos se separavam com a mesma facilidade com que largavam seus vestidos, para tomarem de novo a araçóia, e tornavam aos matos para serem tão bons adoradores de Tupã como dantes.
Aconteceu pois que um belo dia a esposa de José Luís anoiteceu e não amanheceu, desaparecendo com seus irmãos em Tupã, e levando consigo sua filhinha ainda de mama. José Luís ficou sumamente aflito e magoado com este acontecimento; fez imensas diligências para apanhar ao menos a filha pois com a mãe já não contava mais à vista de um tal procedimento.
Mas todos os seus passos foram perdidos, e depois de um ano de pesquisas e excursões pelas matas, desanimou...
As florestas são imensas, e aquela gente não tem pouso certo nem por uma semana.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.