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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

Esta amorosa confidência no momento em que se achava no ponto mais interessante, foi bruscamente interrompida pela presença de Martinho, que se lhes atravessou pela frente, fazendo uma profunda reverência. Álvaro indignado carregou o sobrolho, e esteve a ponto de enxotar o importuno, como quem enxota um cão. Elvira estacou como que petrificada de pavor.

— Senhor Álvaro, disse-lhe respeitosamente o Martinho, — com a permissão de V. Sª. preciso dizer duas palavras a esta senhora, a quem V. S.a dá o braço.

— A esta senhora! — exclamou maravilhado o cavalheiro. – Que tem o senhor que ver com esta senhora?

— Negócio de suma importância; ela bem o sabe, melhor do que eu e o senhor.

Álvaro, que bem conhecia o Martinho, e sabia quanto era abjeto e desprezível, julgando ser aquilo manobra de algum rival invejoso, e covarde, que se servia daquele miserável para ultrajá-lo ou expô-lo ao ridículo, teve um assomo de indignação, mas contendo-se por um momento:

— Tem a senhora algum negócio com este homem? – perguntou a Elvira.

— Eu?!... nenhum, por certo; nem mesmo o conheço, — balbuciou a moça, pálida e a tremer.

— Mas, meu Deus! D. Elvira, por que treme assim? como está pálida!.., maldito importuno, que assim a faz sofrer!... oh! pelo céu, D. Elvira, não se assuste assim. Aqui estou eu a seu lado, e ai daquele que ousar ultrajar-nos!

— Ninguém quer ultrajá-los, senhor Álvaro — replicou o Martinho; mas o negócio é mais sério do que o senhor pensa.

— Enfim, senhor Martinho, deixe-se de rodeios e diga-nos aqui mesmo o que quer com esta senhora.

— Posso dizê-lo; mas seria melhor que V. Sª. o ignorasse.

— Oh! temos mistério!... pois nesse caso declaro-lhe que não abandonarei esta senhora um só instante, e se o senhor não quer dizer ao que veio, pode retirarse.

— Nessa não caio eu, que não hei de perder o meu tempo, e o meu trabalho, e nem os meus cinco contos. — Estas últimas palavras resmungou-as ele entre os dentes.

— Senhor Martinho, por favor queira não abusar mais da minha paciência.

Se não quer dizer ao que veio, ponha-se já longe da minha presença...

— Oh! senhor! retorquiu Martinho, sem se perturbar; — já que a isso me força, pouco me custa fazer-lhe a vontade, e com bastante pesar tenho de declararlhe, que essa senhora a quem dá o braço, é uma escrava fugida!...

Álvaro, se bem que conhecesse a vilania e impudência do caráter de Martinho, no primeiro momento ficou pasmo ao ouvir aquela súbita e imprevista delação. Não podia dar-lhe crédito, e refletindo um instante confirmou-se mais na idéia de que tudo aquilo não passava de uma farsa posta em jogo por algum indigno rival, com o fim de desgostá-lo ou insultá-lo. A pessoa do Martinho, que não poucas vezes, na qualidade de truão ou palhaço, servia de instrumento às vinganças e paixões mesquinhas de entes tão ignóbeis como ele, servia para justificar a desconfiança de Álvaro, que acabou por não sentir senão asco e indignação por tão infame procedimento.

— Senhor Martinho, — bradou ele com voz severa, — se alguém pagou-lhe para vir achincalhar-me a mim e a esta senhora, diga quanto ganha, que estou pronto a dar-lhe o dobro para nos deixar em paz.

A esta sanguinolenta afronta, a larga e impudente cara do Martinho nem de leve se alterou, e por única resposta:

— Torno a repetir, — bradou com todo o descaramento, — e em voz bem alta, para que todos ouçam: esta senhora que aqui se acha, é uma escrava fugida, e eu estou encarregado de apreendê-la e entregá-la a seu senhor.

Entretanto Isaura, avistando seu pai, que também a procurava por toda a parte com os olhos, largando o braço de Álvaro correu a ele, lançou-se-lhe nos braços, e escondendo o rosto em seu ombro:

— Que opróbrio, meu pai! - exclamou com voz sumida e a soluçar.

— Eu bem estava pressentindo!...

— Este homem, se não é um insolente, ou está louco ou bêbado, — bradava Álvaro pálido de cólera. — Em todo o caso deve ser enxotado como indigno desta sociedade.

Já alguns amigos de Álvaro agarrando o Martinho pelo braço, se dispunham a pô-lo pela porta a fora, como a um ébrio ou alienado.

Devagar, meus amigos, devagar!... disse-lhes ele com toda a calma. — Não me condenem sem primeiro ouvirem-me. Escutem primeiro este anúncio que lhes vou ler, e se não for verdade o que eu digo, dou-lhes licença para me cuspirem na cara, e me atirarem da janela abaixo.

(continua...)

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