Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
O Passeio Público teve indubitavelmente a sua época de brilhantismo e de encanto no vice-reinado de Luís de Vasconcelos e Sousa. Mas, logo depois, sobreveio-lhe um longo período de lamentável desprezo, durante o governo do vice-rei conde de Resende, e em seguida experimentou, ora insuficientes cuidados, ora um tristíssimo abandono, até que finalmente agora vai reaparecer mais belo que nunca, segundo o apregoa a fama, graças a uma reforma inteligente, artística e digna da capital do império.
Luís de Vasconcelos amava tanto a sua obra como um pai ama a sua filha, e soube despender sempre com ela extremosos cuidados. Não se limitou a enriquecer o jardim com ornamentos interiores. Engraçou-o ainda pelo exterior, fazendo abrir e alinhar bonitas ruas por onde se pudesse ir ter a ele. Foi assim que dispôs a rua que, correndo pela frente do Passeio, tomou do Passeio o nome, sendo apenas de lamentar que em suas proporções tão estreita ficasse. E além da rua do Passeio, a outra que cai perpendicularmente sobre esta no ponto em que se mostra o portão, e que então se chamou rua das Belas Noites em vez de rua das Marrecas, que é como hoje se chama. Abertas as ruas, o vice-rei promoveu nelas a construção de casas, determinou e adiantou algumas edificações, que aliás não pôde concluir, como tinha em mente e, enfim, não perdeu ocasião de excitar alegria e festas no seio do seu pequeno paraíso.
O povo procedia neste caso muito de acordo com o vice-rei. Bem entendido, neste caso, de acordo espontâneo e muito de coração. Porque em todos os outros casos não tinha remédio senão mostrar-se também de acordo com ele, quer quisesse quer não, visto que não era admissível que um vice-rei alguma vez deixasse de ter toda a razão em tudo e por tudo. E pouco admira que naqueles tempos todos aplaudissem o juízo infalível do poderoso delegado do rei absoluto, quando ainda hoje são muitos os que piamente acreditam que a infalibilidade não está nos homens, está no poleiro, na influência do poder e, até, às vezes, simplesmente no feitiço do tesouro público.
O povo tomou amor ao seu belo jardim desde o primeiro dia.
Ainda há velhos a quem lembram as festas brilhantes que ali se fizeram em 1786, em aplauso do casamento do príncipe que 22 anos depois veio assentar o trono da monarquia portuguesa na cidade do Rio de Janeiro. Iluminações, músicas e danças aparatosas foram então executadas, durante algumas noites, no Passeio Público, e não faltaram poetas que nessa ocasião se fizessem ouvir inspirados no meio de enchentes de flores... flores vegetais e humanas.
Além dessa, algumas outras festas públicas tiveram lugar no Passeio, do ano de 1786 em diante, e a prova ficou no grande número de lampiões que para aquele fim se guardavam nas duas casas que se levantaram dentro do jardim, como já ficou dito.
Mas essas noites oficiais, embora deslumbrassem a população e lhe dessem fervorosa alegria, eram naturalmente de curta duração, davam ao Passeio Público apenas uma vida artificial e um encanto que não podia ser perene.
Ora, o que mais nos importa conhecer é a vida normal, a animação de todos os dias e de todas as noites que tinha aquele jardim, no tempo a que me refiro.
Quereis, pois, fazer idéia do que era para o povo do Rio de Janeiro o Passeio Público naquela época, e ainda em outras posteriores, a despeito do desmazelo dos governos? Perguntai qual foi a origem da denominação de Belas Noites, dada à rua que depois muito prosaicamente chamaram das Marrecas.
Aquele nome Rua das Belas Noites queria dizer que o Passeio Público fizera o povo do Rio de Janeiro gostar pouco da lua nova e aborrecer a minguante.
Por quê? Eis aqui todo o segredo desse desamor e desse aborrecimento por aquelas duas fases da lua.
Nas noites de brilhante luar, dirigiam-se alegremente para o Passeio Público numerosas famílias, galantes ranchos de moças, e por conseqüência, cobiçosos ranchos de mancebos; e todos, depois de passear pelas frescas ruas e pelo ameno e elegante terraço, iam, divididos em círculos de amigos, sentar-se às mesas de pedra, e debaixo dos tetos de jasmins odoríferos ouviam modinhas apaixonadas, e lundus travessos, cantados ao som da viola e da guitarra, rematando sempre esses divertimentos com excelentes ceias dadas ali mesmo.
Toda essa multidão contente e festiva tomava de preferência, para chegar ao Passeio Público, a rua que ficava e fica fronteira ao portão do jardim. A lua crescente ou plena brilhava no céu. Os grupos docemente ruidosos de moças sucediam-se uns aos outros ao longo daquela tão curta como afortunada rua. Os cantos soavam. Sentia-se o prazer geral no concurso de todos para os mesmos inocentes gozos. Oh! que nome quereis que fosse dado a essa rua? Que outro nome mais bem cabido do que o “das Belas Noites”?
E como essas famílias, aquelas moças e aqueles mancebos
deixariam de desamar a lua nova, e aborrecer a minguante, que eram as fases da
lua menos propícias às suas suspiradas reuniões no jardim?
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.