Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
De manhã, negociantes, capitalistas, funccionarios publicos, advogados, e homens de de todas as profissões, correm a povoar a cidade do trabalho ; chegada porém a hora em que o trabalho cessa ou escassêa, voltão apressados a passar a tarde e a noite na cidade do uescanço. É verdade que a grande maioria da população fica sempre na primeira cidade ; mas também a grande maioria é composta d'aquelles que não podem ter uma casa para a manhã e outra para a tarde e a noite : habitão constantemente a cidade do trabalho pouco mais ou menos pela mesma razão por que os prezos habitão na cadeia.
Geraldo-Risota pertencia ao numero dos felizes, que podem ir jantar e dormir na chacara, e, muito zeloso d'esse direito, logo que terminou a sua tarefa no dia da chegada de Innocencio, partio para a sua casa de campo, levando comsigo o afilhado.
Jantarão ambos como bons amigos, e, acabado o jantar, fôrão tomar o fresco passeando pelo jardim.
Alli estão elles, o padrinho e o afilhado, sentados em frente um do outro, em dous bancos de relva.
Innocencio acabava de enunciar-se não sei a respeito de que assumpto com o seu ardor costumado, e Geral-Risota havia lhe respondido com uma gargalhada.
Ficarão depois em silencio por algum tempo ; mas Geraldo outra vez encetou a conversação.
— Conversemos, Innocencio; mas falla-me em prosa se queres que eu te entertda.
— Fallar-lhe-hei do modo que chama prosa, meu padrinho, isto é, sem mostrar interesse, e ainda menos enthusiasmo, que é o que lhe narece poesia; fallar-lhe-hei pois assim, mas ha de ser com uma condição.
— E qual é ella ?
_ Que vossa mercê não me interromperá com as suas risadas, que me desapontão.
— Oh diabo !
— Sim ou não, meu padrinho !...
— Mas se és tu que me fazes rir !
— Vossa mercê ri de tudo.
— Foi o melhor partido que pude tomar depois que reflecti seriamente sobre os homens e as cousas da nossa epoca.
— Em tal caso não direi mais palavra, nem em verso, nem em prosa.
— Está bem : por tua causa suffocarei o riso e tornar-me-hei sério e grave como um desembargador quando veste a beca. Ora pois, conversemos.
— Conversemos, meu padrinho.
— Principia tu, pondo-me ao facto dos teus projectos e esperanças ; pôde ser que eu te dê algum bom conselho, porque emfim sou teu parente, teu padrinho, e teu amigo.
— Com o maior prazer.
— Vamos lá: acceode outro charuto, e falla ; mas falla sem fogo, falla frio, desenxabido e positivo como um deputado ministerial.
Innocencio accendeu um segundo charuto e fallou :
— Meu padrinho, tres grandes esperanças me animão, tres bellos pensamentos me occupão actualmente.
— É muito : tres são demais ; devia ser uma só, e ainda assim não seria difficil o desencanto.
— Mas as minhas esperanças baseão-se em seguros fundamentos.
— Vamos a ellas.
— Espero no dia 30 de Janeiro ser eleito deputado pelo meu districto, na provincia onde nasci.
— Oh lá!
— Espero que o governo me confie uma commissão importante, na qual servirei bem ao meu paiz, e darei uma provados meus recursos intellectuaes.
— Excellente!
— Espero emfim casar-me com uma jovem que fará a felicidade da minha vida.
— Tres sortes grandes sem comprar bilhete!... desconfio de tanta cousa junta : olha que eu desato a rir, Innocencio !
— E eu calo-me.
— Não : estás vendo que conservo inalteravel a minha gravidade de desembargador de beca.
Tornemos ás esperanças, e estudemos cada uma por sua vez. Como arranjaste a deputação?
— Muito simplesmente : reuni em minha casa os eleitores do meu municipio, expuz claramente a todos elles as minhas idéas politicas e administrativas, mostrei-lhes quaes erão os meios mais racionaes e capazes de preparar um brilhante futuro á nossa pátria, marquei o procedimento que eu teria se fosse eleito deputado, e conclui dizendo-lhes : eu não vos peço os vossos votos ; pergunto-vos se os mereço : se os mereço, deveis dar-m'os : a eleião não é uma questão de favor, e sim de interesse geral e de consciencia. Ora, os eleitores respondêrão-me que as minhas idéas erão excellentes, e que me suppunhão muito digno de uma cadeira na camara temporaria ; por conseqüencia, não posso duvidar do resultado da minha eleição.
— Mas quem toma a peito a tua candidatura ?
— Creio que todos os eleitores.
— Porque?...
— Já o não disse?... porque todos eíles applaudírão as minhas idéas, e reconhecerão que erão sãs, conscienciosas e utilissimas.
— E o presidente da provincia protege-te ?
— Que tem que ver o presidente da provincia com a minha eleição ?... eu rejeitaria um diploma que fosse arrancado aos eleitores pela intervenção do governo.
— Mas alguma potencia eleitoral ao menos...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.