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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- Que lhe fez cá o homem? inquiriu Gonçalo. 

- É um refinado tratante, ele e mais o tranca do Jão Bugre. 

- O patrão também tem negócio com esse danado? disse Gonçalo. 

- Pois o negócio era com ele; mas o patife não ata nem desata; e já a coisa me cheira a caçoada. 

- Que quer? O senhor foi se meter com ele: não tinha que ver! 

- Então não é o que dizem? 

- Qual! Gabolice tudo! Não deixava de ser valente. Lá isso é verdade. Mas onde vê, já o encostei, e só com este braço. Não é debalde que me chamam de suçuarana! 

- Com tanto que me avie o diabo depressa. 

- Não custa. É só falar; o mais fica por minha conta. Eu cá não sou lerdo como o Bugre. Ainda bem o ajuste não está feito, que eu já ando com a obra em meio. 

- Pois vamos acabar com isto de uma vez. 

  Cavalgaram os dois de novo e seguiram pela estrada na mesma direção que havia tomado pouco antes o Filipe e sua troça. 

  Neste momento o casco da cabeça do negro, lisa como um quengo, surdia por cima da velha cepa queimada, e dois olhos que pareciam carbúnculos, se alongaram pelo caminho além.  

- Eh! Branco mesmo!... resmungou uma voz trôpega. 

 

XXIII 

Nhá Tudinha 

 

  Era pela volta das oito horas. 

  Nhá Tudinha entrava e saía, andando de um lado para outro, na labutação do costume. Não por necessidade, que só por gênio vivia ela nessa contínua lida caseira desde que amanhecia até o escurecer.  

Tinha essa mulherzinha baixa e rolha tal prurido da pele que não podia estar um momento sossegada. Por força que se havia de ocupar alguma coisa; e para que lhe rendesse a tarefa, muitas vezes desfazia o que já estava pronto, a fim de Ter o gosto de arranjar de novo. 

  Nunca sentia-se tão feliz e contente como nos dias em que a apoquentavam de trabalho. Correr daqui para ali, revolver os cantos da casa, abrir e fechar portas, acudir da varanda à cozinha, e dar vazão a tudo; nisso consistia o seu maior prazer nesse mundo. 

  Quem a visse naquela dobadoura da manhã à noite, ficaria admirado de seu ar lépido e agudo; pois decerto não se podia esperar semelhante volubilidade naquele corpo rechonchudo, com suas perninhas curtas e socadas. 

  Achava-se então nhã Tudinha em uma de suas boas vezes. O São João estava à porta; e ela, que tinha, e com muita razão, o seu garbo de doceira afamada, por costume antigo se pusera na obrigação de mandar em dias de festa os mimos feitos por suas mãos, no que estava o chiste, às pessoas de amizade, cujo rol começava necessariamente pelo compadre Luís Galvão, padrinho de Miguel. 

  Por isso já de véspera andava ela às voltas com o alguidar e o forno. 

  Sentada na varanda sobre uma esteira e rodeada de todos os petrechos, estava mui atarefada e, anaçar ovos e amassar fubá mimoso para fazer as broas saborosas e os bolos de milho que ninguém preparava como ela. 

  Ajudava-a neste mister a Fausta, preta de meia-idade. Eram, essa escrava e a casinha, os restos da abastança de que outrora gozara em vida de seu finado marido, Eugênio de Figueiredo, companheiro e amigo de Luís Galvão. Más colheitas e juros enormes, tinham consumido os modestos haveres.  

Quando estava nhá Tudinha mais embebida em fazer um passarinho de biscoito, de repente lho arrebataram sutilmente da mão, e uma voz brejeira que arremedava tanto quanto podia abocanhar de um cãozinho, gritou: 

  Nhau!... 

(continua...)

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