Por José de Alencar (1872)
Demoveu-o desse intento a distinção com que logo depois o tratou Soares e a família. As prevenções que trazia, se de todo não se dissiparam, ao menos emudeceram, diante do caráter franco do banqueiro, da singeleza ingênua de D.
Paulina, e na natural e graciosa isenção de Guida, que parecia flor exótica naquele áureo clima do milhão.
Sentiu que deixara de ser um número de rol, um anônimo perdido na turba; e por conseguinte não tinha já o direito de se escapar, sem dar satisfação. A delicadeza, e também o assomo ainda vago dum desejo a espontar, exigiam que assistisse ao banquete do Soares.
- Chamam-nos para jantar! disse o dono da casa convidando com um gesto seus hóspedes a passarem ao salão.
A Ricardo estava destinado um lugar à direita de D. Paulina; quanto a Fábio, como não se lembravam dele, e pela simples razão de já haver tomado conta da casa, a igual de conhecido velho, foi colocando-se ao lado de D.
Guilhermina, que mostrava-se encantada com a lábia cintilante e espirituosa do bacharel.
- Doutor Nunes, cuide de si! disse o Soares logo depois de tomada a sopa, senão minha mulher deixa-o com fome.
- Fico prevenido! respondeu Ricardo sorrindo.
- Está sempre a brincar! Observou D. Paulina, respondendo ao sorriso do moço.
- Como quer começar? À francesa pelo peixe, ou cá à nossa moda brasileira pelo cozido? tornou o dono da casa.
- Já estou servido.
Um criado acabava de trazer o prato de peixe, que lhe servira a Guida fazendo como de costume as honras da casa. No correr do jantar conversando com D. Paulina, Ricardo sentia um prazer íntimo, como que um aroma das rosas guardadas no seio d’alma. Era que o aspecto sereno da senhora, a efusão de bondade que ressumbrava de toda a sua pessoa, e especialmente as maneiras tão lhanas, lhe estavam retratando na imaginação o aspecto venerável de sua mãe, e mostrando a tal como havia de ser, se a fortuna a colocasse no pináculo da riqueza.
Às vezes, Guida sentada à cabeceira e atenta a seus deveres de dona-de-casa, que ela exercia com exímio tato, intervinha com alguma observação na conversa de D. Paulina; e Ricardo recordava-se de Bela, tão linda como a filha do banqueiro, embora lhe faltasse o garbo que dava ao talhe da última supremo realce.
Falando a mãe dos vários sítios da Tijuca, a moça disse para Ricardo:
- Domingo, havemos de ir à Vista Chinesa!
- Com muito prazer.
- É um passeio agradável! observou D. Paulina.
- A vista é soberba; mas como passeio, a Barra.
- E tem razão; é mais pitoresco! replicou Ricardo.
- Por que então não convidaste antes o Sr. Dr. Nunes para ir à Barra?
- Por quê?...repetiu Guida a sorrir. O caminho do Jardim é melhor para galopar.
- Travessa! disse D. Paulina com bondade.
- Gosta muito de andar a cavalo? perguntou o advogado.
- Muito! É minha paixão!...
Ao exíguo visconde, sumido atrás do enorme peru, não escapavam as várias impressões que se manifestavam na fisionomia do banquete, sob o ruído da conversa banal travada de uma à outra ponta da mesa, e acompanhada do tinir dos cristais e ranger dos talheres.
“O prato é o homem”; tradução livre do axioma de Brillat-Savarin: “Dis-moi ce que tu manges, je te diirai ce que tu es”. Diante do visconde erguia-se um coculo de iguarias; mas era um cúmulo usurário e avarento; compunha-se de uma nica de cada coisa. Servia-se do primeiro ao último dos acepipes; mas só tirava o juro: uns magros 3%.
Com dois daqueles pratos enciclopédicos, estava jantado.
Nesse momento comia ele rapidamente, resmoendo com um dos tais bocados esta palavra, que lhe restava a fazer cócegas nos lábios:
- Que álgebra!... Que álgebra!...
Na linguagem peculiar do visconde “álgebra” significava uma dessas operações intrincadas de juros acumulados e múltiplos, inseridos em cláusulas aleatórias e onzeneiras, que fulminam o mísero caído nas garras de um capitalista mitrado.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.