Por José de Alencar (1875)
Era meio-dia, quando os viajantes despediram-se do capitão-mór Campelo, depois de agradecerem a fidalga hospitalidade que tinham recebido. Montando a-cavalo partiram, seguidos pelos pagens.
Quando transpunham o terreiro, ao capitão Fragoso voltou-se de chofre e logrou seu intuito surpreendendo na janela as duas moças que estavam a espiar a cavalgada. O mancebo inclinou-se, cortejando-as com o chapéu.
Enquanto D. Flor respondia ao cortejo com polido recato, Alina, que se esquivara vergonhosa, avistou de repente entre a ramagem das árvores, o vulto de Arnaldo, cujas feições tinham nesse momento sinistra expressão.
O sertanejo, do lugar sobranceiro em que se achava, de pé sôbre a carcaça de um velho angico derrubado, fitava o olhar cheio de ameaças no capitão Marcos Fragoso. Quando o raio dêsse olhar perpassou pela janela, a moça estremeceu de terror, e não pôde conter um débil grito, que rompeu-lhe do seio.
— Que é? perguntou D. Flor voltando-se.
— Não é nada. Um susto à-toa.
— De que?
— Nem eu sei. Alí no mato…
— Alguma onça, como esta manhâ?
— Sim: creio que foi.
Entretanto a cavalgada descia a encosta e desaparecia na volta do caminho.
Arnaldo viu-a passar imóvel, mas abalado por ardente emoção. Depois que perdeu de vista os cavalheiros, aplicou o ouvido aos rumores que ia levantando pelo caminho o tropel dos animais. Sua alma arrastada por uma cadeia misteriosa acompanhava aquele homem que viera perturbar-lhe a existência, e não podia desprender-se do elo a que estava soldada para sempre.
Quando afinal apagou-se o último ruído da cavalgada, Arnaldo vergou a cabeça ao peito e assim permaneceu longo trato, imerso em tristeza profunda e acabrunhado por uma dôr imensa, como nunca sentira.
XVII – A jura
Absorto como estava, o sertanejo afastou-se maquinalmente da casa, na direção da serra.
Não tinha conciência do que se passava em tôrno de si; não via os objetos que o rodeavam, nem ouvia os rumores da solidão; mas guiava-o através da floresta o admirável instinto do filho das brenhas, êsse sentido delicadíssimo que vela sempre e adverte ao vaqueano da aproximação do perigo, antes que os outros órgãos possam denunciá-lo.
A-pesar-de inteiramente alheio a si, o mancebo caminhava com extrema cautela por entre o mato, como quem, receoso da batida ordenada pelo capitão-mór, tratava de escapar-lhe.
Da mesma sorte que os autômatos, obedecendo à pressão da mola que os põe em movimento, executam evoluções regulares, o corpo dos homens de têmpera vigorosa tem a propriedade de reter em si os impulsos da vontade e dirigir-se por essa norma, ainda quando a alma entra em repouso e abandona por assim dizer o invólucro de sua materialidade.
Ao passo que o mancebo vagava por entre a espessura, seu espírito debatia-se no turbilhão de sensações que o assaltara. Debalde tentou destacar uma idéia dêsse caos e refletir sôbre o acontecimento, que lhe subvertera a existência. Como uma fôlha convolta pelo remoinho de vento, sua mente era arrastada por um tropel de impressões a que não podia subtrair-se.
Foi quando serenou êsse primeiro alvorôço, que seu pensamento desprendeu-se, mas ainda confuso e desordenado. Tinha êle parado em frente de um arbusto morto e olhava-o com expressão compassiva.
— Eu era como êsse angelim, que nasceu no outro inverno. Quando êle crescia e copava, não sabia que a sêca havia de chegar e despí-lo das fôlhas, matando-lhe a raiz. Como êle, eu não vi a desventura que vinha roubar-me toda a minha alegria!…
Cego que eu fui!… Pensei que êste doce engano havia de durar sempre, sempre!…
Ao redor de mim tudo mudava. Os grelos que brotaram quando vim ao mundo, já estão árvores da mata. Os garraios de meu tempo ficaram touros e morreram de velhice. Os poldrinhos com que eu brincava em menino cansaram de campear.
As bezerrinhas do ano em que saí a vaquejar com meu pai tornaram-se novilhas e delas nasceram outras, que produziram todo gado novo.
As ramas do maracujá que rebentam com as primeiras águas cobrem-se de flores; das flores saem os frutos que espalham na terra as sementes e das sementes brotam novas ramas, que por sua vez cobrem-se de flores até que murcham e secam.
Tudo muda. Passam os anos e levam a vida. Mas ela, Flor, eu acreditava que havia de ser sempre a mesma, sempre solitária e sempre donzela, como a lua no céu, como a Virgem em seu altar. Eu a adoraria eternamente assim, no seu resplendor; e não queria outra felicidade senão essa de viver de sua imagem. Nenhum homem a possuiria jamais. Deus não a chamava a si, e a deixava no mundo unicamente para mim.
Um riso amargurado cortou-lhe a meditação.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.