Por José de Alencar (1857)
“Peri tinha vencido; era o primeiro de sua tribo, e o mais forte de todos os guerreiros. “Sua mãe chegou e disse:
‘Peri, chefe dos Goitacás, filho de Ararê, tu és grande, tu és forte como teu pai; tua mãe te ama’.
“Os guerreiros chegaram e disseram:
‘Peri, chefe dos Goitacás, filho de Ararê, tu és o mais valente da tribo e o mais temido do inimigo; os guerreiros te obedecem’. “As mulheres chegaram e disseram:
‘Peri, primeiro de todos, tu és belo como o sol, e flexível como a cana selvagem que te deu o nome; as mulheres são tuas escravas’.
“Peri ouviu e não respondeu; nem a voz de sua mãe, nem o canto dos guerreiros, nem o amor das mulheres, o fez sorrir.
“Na casa da cruz, no meio do fogo, Peri tinha visto a senhora dos brancos; era alva como a filha da lua; era bela como a garça do rio.
“Tinha a cor do céu nos olhos; a cor do sol nos cabelos; estava vestida de nuvens, com um cinto de estrelas e uma pluma de luz.
“O fogo passou; a casa da cruz caiu.
“De noite Peri teve um sonho; a senhora apareceu; estava triste e falou assim:
‘Peri, guerreiro livre, tu és meu escravo; tu me seguirás por toda a parte, como a estrela grande acompanha o dia’.
“A lua tinha voltado o seu arco vermelho, quando tornamos da guerra; todas as noites Peri via a senhora na sua nuvem; ela não tocava a terra, e Peri não podia subir ao céu.
“O cajueiro quando perde a sua folha parece morto; não tem flor, nem sombra; chora umas lágrimas doces como o mel dos seus frutos.
“Assim Peri ficou triste.
“A senhora não apareceu mais; e Peri via sempre a senhora nos seus olhos.
“As árvores ficaram verdes; os passarinhos fizeram seus ninhos; o sabiá cantou; tudo ria: o filho de Ararê lembrou-se de seu pai. “Veio o tempo da guerra.
“Partimos; andamos; chegamos ao grande rio. Os guerreiros armaram as redes; as mulheres fizeram fogo; Peri olhou o sol.
“Viu passar o gavião.
“Se Peri fosse o gavião, ia ver a senhora no céu.
“Viu passar o vento.
“Se Peri fosse o vento, carregava a senhora no ar.
“Viu passar a sombra.
“Se Peri fosse a sombra, acompanhava a senhora de noite.
“Os passarinhos dormiram três vezes.
“Sua mãe veio e disse:
‘Peri, filho de Ararê, guerreiro branco salvou tua mãe; virgem branca também’.
“Peri tomou suas armas e partiu; ia ver o guerreiro branco para ser amigo; e a filha da senhora para ser escravo.
“O sol chegava ao meio do céu e Peri chegava também ao rio; avistou longe a tua casa grande. “A virgem branca apareceu.
“Era a senhora que Peri tinha visto; não estava triste como da primeira vez; estava alegre; tinha deixado lá a nuvem e as estrelas.
“Peri disse:
‘A senhora desceu do céu, porque a lua sua mãe deixou; Peri, filho do sol, acompanhará a senhora na terra’.
“Os olhos estavam na senhora; e o ouvido no coração de Peri. A pedra estalou e quis fazer mal à senhora.
“A senhora tinha salvado a mãe de Peri, Peri não quis que a senhora ficasse triste, e voltasse ao céu.
“Guerreiro branco, Peri, primeiro de sua tribo, filho de Ararê, da nação Goitacá, forte na guerra, te oferece o seu arco; tu és amigo.” O índio terminou aqui a sua narração.
Enquanto falava, um assomo de orgulho selvagem da força e da coragem lhe brilhava nos olhos negros, e dava certa nobreza ao seu gesto. Embora ignorante, filho das florestas, era um rei; tinha a realeza da força.
Apenas concluiu, a altivez do guerreiro desapareceu; ficou tímido e modesto; já não era mais do que um bárbaro em face de criaturas civilizadas, cuja superioridade de educação o seu instinto reconhecia.
D. Antônio o ouvia sorrindo-se do seu estilo ora figurado, ora tão singelo como as primeiras frases que balbucia a criança no seio materno. O fidalgo traduzia da melhor maneira que podia essa linguagem poética a Cecília, a qual já livre do susto queria por força, apesar do medo que lhe causava o selvagem, saber o que ele dizia.
Compreenderam da história de Peri, que uma índia salva havia dois dias por D. Antônio das mãos dos aventureiros e a quem Cecília enchera de presentes de velórios azuis e escarlates, era a mãe do selvagem.
— Peri, disse o fidalgo, quando dois homens se encontram e ficam amigos, o que está na casa do outro recebe a hospitalidade.
— É o costume que os velhos transmitiram aos moços da tribo, e os pais aos filhos.
— Tu cearás conosco.
— Peri te obedece.
A tarde declinava; as primeiras estrelas luziam. A família, acompanhada por Peri, dirigiu-se a casa, e subiu a esplanada.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.