Por José de Alencar (1873)
Nessa conformidade se tinham preparado os teólogos e juristas, recheando-se de latim, abarrotando-se de citações abstrusas, para desbancar os argumentos ex-adverso. Dir-se-iam os improvisadores de atual parlamento em véspera de um debate solene.
Bom é saber-se que dos teólogos, só os jesuítas propendiam para o ouvidor, por espírito de oposição à mitra; e dos juristas apenas o licenciado Figueiredo, por ser patrono do tabelião, encostava-se ao parecer daqueles.
Os mais, ou pelo anexim popular de que “lobo não come lobo”, ou pelo receio de jogar as cristas com a Igreja, eram todos pelo prelado, e se dispunham a sustentar em Câmara, com uma torrente de doutores, que a excomunhão fora decretada conforme o direito e leis da Igreja e do Reino, não podendo suspender-se pela interposição do recurso, que só tinha o efeito devolutivo.
Durante a noite, porém, operou-se grande mudança no espírito dos sábios teólogos e juristas; parece que o livro do povo ali, à rua, aberto em todas as páginas, ensinou-lhes mais em uma hora, do que haviam aprendido toda a vida em comentários e tratados de praxistas.
Assim, logo cedo compareceram, não mais para arrazoados jurídicos, senão para tomar uma deliberação, com que o povo se acomodasse. Do prurido de disputações, se algum ainda tinha resquícios, a vaia dos estudantes acabara de aplacá-lo de todo.
Decidiram em Câmara por unanimidade que a apelação interposta suspendia a excomunhão como entre outros doutores sustentavam Farináceo, Scácia e o Senador Temudo; e pois continuava o ouvidor no exercício de sua jurisdição, devendo aguardar-se a decisão superior, e representar-se a El-Rei sobre a necessidade de uma providência que de futuro evitasse tão graves conflitos entre a autoridade eclesiástica e secular.
Neste sentido, diz o Dr. Baltasar da Silva Lisboa, escreveu-se ao prelado intimando que suspendesse a censura até determinação de Sua Majestade.
O velho e pacato Sebastião Ferreira Freire ia um tanto amarrotado das bolandas em que andara; porém satisfeito a mais não poder com a desforra que tomara do prelado e sua gente.
XXVIII
MAIS UM EXEMPLO DA INGRATIDÃO DAQUELES
A QUEM A POPULARIDADE ELEVA AO PINÁCULO DA GLÓRIA
Três dias depois dos acontecimentos referidos, terminado o jantar, espaciava o tabelião pela cerca, saboreando ainda a ovação que havia recebido, e pavoneando-se em sua importância.
Ao passar junto de um arvoredo embastido, pareceu-lhe ouvir um sussurro de vozes e espreitando por entre a folhagem, descobriu sua filha Marta em requebros e galanteios com o Ivo.
O rapaz instava por aquela beijoca, há tanto tempo pedida e desde então negaceada pela sonsa da menina, que bem desejos tinha de a receber, mas faltava-lhe o ânimo de consentir. Coisas de namorados.
Cansado já de instâncias, queixumes e arrufos, que tudo havia debalde empregado, usou Ivo de esperteza. Disfarçando para apanhar Marta desprevenida, enlaçou-a de repente pela cintura, e prendendo-lhe os braços, conchegou-lhe o talhe ao peito, para colher os lábios vermelhos que em vão tentavam fugir.
Já o beijo abria as asas arrulando sobre a mimosa boquinha, quando se interpôs como uma cabeça de medusa, o ruivo chinó do tabelião.
— Alto lá!... gritou o Sebastião Ferreira.
Confusos e trêmulos, os dois namorados encolhiam-se como se esperassem esconder-se dentro de si ao sobrolho crespo do pai irritado. Contemplou-o o Sebastião alguns instantes a gozar do seu enleio, e travando a cada um do braço, levou-os de roldão ao cartório.
Ainda lá estava o escrevente juramentado, aproveitando a última réstia de dia.
— Lavre-me uma escritura de esponsais, visto ser eu suspeito, e competir-lhe a substituição.
Sem detença.
— Pronto! respondeu o escrevente com o livro aberto.
— Entre partes, 1º outorgante Marta Sebastiana Ferreira Freire, por um lado, e pelo outro Ivo... – Ivo... Ivo de quê? perguntou ao enjeitado atônito. — Ivo das Ervas...
— Escreveu?
— Das Ervas, disse o escrevente repetindo a deixa.
O tabelião deu tempo a fazer o cabeçalho da escritura. Marta morria-se de susto e vergonha, não atinando com o que vinha a ser aquela cerimônia. Tão peco não era o rapaz, que estremecia mas de comoção e jubilo.
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ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.