Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
O velho estava em pé diante dela com seus olhos pequenos, porém penetrantes, fitos em seu rosto, e obrigando-a a abaixar a cabeça.
Enfim, Rodrigues rompeu o silêncio.
– Está triste, senhora?...
– Não! respondeu ela.
– Mas também ninguém a julgará alegre.
– Também não estou alegre.
– Ah!... está pensativa.
Celina olhou para o velho guarda-portão, e o achou sorrindo maliciosamente.
– De que se está rindo assim? perguntou.
– É porque estou adivinhando o pensamento que a ocupa.
– E qual é?...
– Deseja saber a história do meu romance, o nome da virgem inocente e do mancebo pobre, não é assim?
– É verdade, respondeu Celina hesitando.
– Pois eu vou satisfazê-la.
A “Bela Órfã” corou,
– Não sei o nome da virgem, disse o velho.
– E o do mancebo?... perguntou Celina respirando.
– Esse eu o sei. É um jovem modesto e cheio de mérito, porém pobre; ele ama apaixonadamente, ama como nenhum outro poderá amar mais do que ele; mas o seu amor morreria no silêncio de seu quarto se uma generosa e traidora mão não roubasse nesse romance a confissão dele tão extremosa e tão pura...
– Mas quem é ele?...
A bela queria conhecer o seu poeta.
O velho Rodrigues estendeu a mão para o lado do “Purgatório-trigueiro”, e apontando com seu longo e trêmulo dedo, disse:
– É o sr. Cândido.
E como se tivera concluído uma comissão importante, de que se encarregara, saiu da sala com passos vagarosos.
A “Bela Órfã” ficou pensando muito tempo no mesmo lugar, e quando se levantou disse como falando consigo mesma:
Deveria ter adivinhado... anteontem à noite, quando eu meditava, ele também meditou... e cantou depois, sem dúvida, este mesmo romance; porque eu me lembro de ter ouvido distintamente dizer a sua voz:
– Quem colhera o terceiro botão!...
CAPÍTULO XIV
O MOÇO E A MOÇA
APROXIMA-SE a hora encantada do crepúsculo vespertino.
À calma abrasadora de um dos primeiros dias de dezembro, sucedera uma dessas tardes frescas e belas, que fazem as delícias dos países tropicais.
Uma multidão imensa pejava as alamedas, os dois pequenos largos, e o terraço do Passeio Público da boa cidade do Rio de Janeiro. Era como uma tarde de festa.
Entre os novos concorrentes que a todo o instante formigavam, quatro vieram enfim que atraíram a atenção de muita gente. Eram um homem e uma mulher velha; e um homem e uma mulher moça.
Vinham os dois últimos adiante, e seguidos pelos velhos. Tão facilmente se lia a serenidade no semblante destes, como a perturbação no dos primeiros.
Estava a moça muito corada, e quase ansiosa; e o moço pelo contrário, muito pálido, e como que abatido. Traziam ambos os olhos no chão, e não se diziam palavra. Eram porém ambos bonitos; a moça principalmente era muito bela.
Vinha ela de vestido de escomilha cor-de-rosa e em corpinho, com os cabelos à napolitana; não trazia nem brincos, nem adereço, nem pulseiras, mas sim lindíssimos braços nus, pois que o vestido era de mangas curtas, e ao mesmo tempo tão comprido, que apenas às vezes se descobria a ponta envernizada de suas pequeninas botinas. Uma fita azul, larga de dois dedos, e enlaçada na cintura, era ao demais o seu único ornato.
O moço vestia sobrecasaca e calças de merinó preto, gravata de mesma cor, e colete de fustão branco lavrado. Tinha fechando-lhe o peito da camisa, um simples botão de ouro pequenino e liso; trazia os cabelos muito curtos, chapéu de castor preto, e botins de couro de bezerro.
A velha estava vestida toda de preto, e tinha na cabeça um chapelinho da mesma cor, mas de palha, com enfeites de fitas roxas.
O ancião enfim, vinha de sobrecasaca de pano cor de rapé, gravata preta, colete e calças brancas, trazia uma grossa corrente de ouro, muito fora da moda, prendendo o relógio, e pendendo de uma fita negra, sua grande luneta de aros de prata. Tinha na cabeça um chapéu de patente, e calçava sapatos ingleses.
Seguiram estas quatro personagens a rua, que em linha reta vai do portão do Passeio terminar-se no largo principal, e defronte do outeiro artificial chamado comumente – Cascata. – De caminho foi o velho cumprimentado como amigo por alguns. Trazia a moça muito no chão os olhos para o ser também. Ninguém todavia deu sinal de conhecer a velha nem o moço.
Os dois velhos conversando um com o outro sem cessar, nada ouviram do que se poderia estar dizendo em derredor deles. Outro tanto não acontecia aos mancebos que, em silêncio caminhando, tinham por conseqüência mais apurada a atenção.
Já por vezes lhes tinha chegado aos ouvidos ora um elogio à beleza da jovem, ora as meias palavras e o ruído das risadinhas de duas moças ao apuridar-se; quando ao passarem por junto de dois mancebos, disse um deles:
– Olha... aí vão dois irmãos ou dois noivos.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.