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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Não é uma ficção de romance. Uma moça, que dizem ser formosa e que chega a qualquer cidade, é pedida e desejada pelos olhos de todos; todos a querem ver, e no coração de todos se prepara um sentimento para ela, que antes da primeira vista apenas interrogativo. No coração das moças se pergunta: “será uma rival perigosa”?... No coração dos moços se diz ao contrário: “será um encanto poderoso”?...

E, pois, Honorina estava nesse caso. Fora, é certo, nascida e educada na corte, mas longe dos olhos da multidão, abrigada à sombra do amor, e escondida debaixo do véu dos prejuízos de uma família, que, arraigada a graves usanças, se espantava e corava diante da civilização galanteadora da furta-cor França. Enfim, conquistada pelo gosto da época, ela entrava pela primeira vez em uma dessas salas de prazer ardente, onde parece que se quer com olhos de fogo devorar a beleza, que chega.

Honorina entrou ao lado de Raquel: comovida e trêmula, ela hesitou um momento; inocente ainda, não compreendeu o que queria dizer o sussurro que se levantava à sua chegada; mas Raquel, que de coração a amava, vendo-a com os olhos no chão, e mais pálida que nunca, disse-lhe ao ouvido:

— Princesa da festa, levanta a cabeça; pois que a vitória é já tua.

Honorina levantou os olhos, e com eles percorreu toda a sala... o rubor do pejo tingiu suas faces... como as primeiras rosas da aurora insinuada em um céu cor de leite.

Com efeito, o triunfo era dela. O murmúrio que se escuta quando uma moça entra numa assembléia, ou demonstra o horror que se vota ao vício, ou a admiração e entusiasmo, como que se contempla a virtude e a beleza. O vício estava longe de Honorina; a virtude se aninhava em sua alma e a beleza se mostrava em toda ela; e, pois, o triunfo era dela.

Honorina vinha toucada e vestida do seguinte modo: dois largos bandós de lindos cabelos negros desciam até dois dedos abaixo das orelhas e para trás se voltavam, indo suas extremidades a perder-se por entre longas tranças de perfeitíssimo trabalho, que se enroscavam terminando em cesta; uma grinalda de flores brancas salteadas de pequeninos botões de rosa se entretecia nesse belo tecido de madeixas; duas rosetas de brilhantes pendiam de suas orelhas; nenhum enfeite, nenhum adorno ousara cair sobre seu colo, que, nu, alvejava, arredondado, virginal, e puro; um vestido de finíssimo blonde, que deixava transparecer o branco cetim que cobria o corpinho todo talhado em estreitas pregas, que desenhavam elegantes formas, era debruado por uma longa fita de flores, semelhantes às dos cabelos, as quais ainda se deixavam de novo ver formando uma cercadura em que acabavam as mangas curtas, justas, e singelas; esse vestido cruelmente comprido para esconder dois pequenos pés calçando sapatinhos de cetim, se terminava por uma simples barra bordada de branco; no braço esquerdo da moça fulgia um bracelete de riquíssimos brilhantes; e, enfim, suas mãos calçavam luvas de pelica branca, guarnecidas de arminho e com borlas de seda frouxa.

Raquel se tinha vestido, toucado, e adornado absolutamente como Honorina. Não se via em uma nada de menos e nada de mais do que na outra: eram duas irmãs, e ambas da mesma altura, ambas com cabelos e olhos pretos, ambas quase igualmente belas; apenas no rosto deferiam; porque a primeira o tinha corado, vivo e alegre; e a segunda, pálido e melancólico.

Honorina e Raquel ocupavam duas cadeiras, que estavam aos lados de D. Lucrécia. Esta senhora beijou as duas moças, e Honorina viu fitos em seu rosto dois lindos olhos azuis cheios de encantadora doçura, e ouviu que a jovem viúva lhe dizia:

— É preciso ser bem feliz, minha senhora, para que com tanta formosura se ganhe ao primeiro momento todo o coração de outra moça!...

E D. Lucrécia se sorriu com um sorrir angélico... e era uma rival que se sorria!...

Honorina, vivamente tocada do que lhe dizia Lucrécia, mal teve tempo de apertar decentemente a mão da moça, que segurava na sua, porque uma multidão de mancebos se precipitava para ela.

— Meu Deus!... exclamou a moça encostando-se o mais que pôde na cadeira.

A primeira, a segunda, a terceira... até a décima segunda quadrilha já estavam concedidas, e a coluna dos cavalheiros cada vez se tornava mais compacta e forte.

A cada mancebo galante que corria para Honorina, um novo e engraçado sorriso se derramava pelos lábios de Lucrécia, e uma seta penetrava em seu coração.

— Raquel! disse Honorina passando a cabeça por detrás da cadeira de Lucrécia; Raquel! acode-me; eu já não posso...

— Escuta, respondeu-lhe a amiga; ao primeiro que te falar, responde: “já tenho para todas”.

Quando Honorina voltou a cabeça, já estavam três cavalheiros defronte dela; o primeiro que lhe falou foi Brás-mimoso.

— Minha senhora, venho implorar a V. Ex.ª a honra de uma contradança.

— Mas se eu já tenho par para todas...

— Porém, quantas são todas, minha senhora?...

— A falar a verdade... eu me não lembro... Raquel, tu te lembras quantas contradanças prometi?...

— Vinte e três, respondeu Raquel sem hesitar.

— E V. Ex.ª, minha senhora? disse Brás-mimoso, voltando-se para D. Lucrécia.

(continua...)

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