Por Machado de Assis (1872)
— Não atendeste à ordem geral que eu havia dado, disse enfim, o dono da casa, e creio que só alguma razão poderosa te obrigaria a isso.
— Assim era, retorquiu Meneses, mas a razão acabou e eu volto para a cidade. Dizendo isto, pôs o chapéu na cabeça e dirigiu-se para a porta. Parou um instante, caminhou de novo até a rede e proferiu secamente Tenho estas palavras:
— Tens consciência do que fizeste?
— Tenho, respondeu Félix; fiz o que me cumpria fazer. Mas, antes de mais nada, vens aqui por inspiração tua ou por mandado de. . .
— Venho porque era um dever da minha parte livrar-te da vergonha, e a ela da morte.
— Da morte! exclamou Félix levantando-se de um pulo.
O terror que se lhe pintara no rosto fez boa impressão no amigo. Suspeitou este que nem tudo estivesse perdido. Sentaram-se ambos, e Meneses referiu ao médico os acontecimentos que deixo narrados no capítulo anterior. Félix escutou a narração do amigo com um interesse que não podia vir senão do amor. Meneses concluiu pintando-lhe com as cores que o caso pedia a baixeza do seu procedimento, o desaire que recaía sobre a viúva, e o remorso que o havia de acompanhar a ele, ainda quando daquele triste episódio não saísse nenhuma fatal conseqüência.
Félix mostrou-se profundamente comovido com a narração de Meneses e as reflexões que lhe fizera.
— Tens razão, disse ele quando o amigo acabou de falar; procedi covardemente. Ela ainda me ama... E perdoa-me, não é? Sim, há de perdoar-me... Pobre Lívia! Se tu soubesses como ela tem sofrido por minha causa!...
Meneses, satisfeito, disse-lhe que era indispensável voltar à cidade. Enquanto falava, porém o rosto de Félix mudou de expressão. A única resposta do médico foi:
— Não! o que está feito, está feito; agora é impossível recuar.
— Impossível! gritou Meneses.
— Impossível, repetiu placidamente Félix.
Meneses levantou-se impaciente e começou a passear. A serenidade do médico mais lhe doía do que indignava, porque alguma razão poderosa devia ele ter para cortar tão peremptoriamente toda a tentativa de reconciliação. Quisera sabê-la e tremia de o interrogar.
O médico, entretanto, deixara-se estar sentado, quase tão tranqüilo como na ocasião em que Meneses lhe entrara no gabinete.
Não era fingida essa tranqüilidade, que durava já de alguns dias, depois de outros, os primeiros, que foram de aflitiva tempestade.
O homem não se esconde de si mesmo, e o maior infortúrnio dos corações pusilânimes é sentirem que o são. Quando Félix chegou à Tijuca tinha passado a excitação do primeiro`momento; o espírito, fraco de si, e abatido pela imensidade do abalo, não achou na solidão o alívio que lhe pedira. Vieram então muitos dias de luta e de febre, em que ele, para fortalecer o animo, lia e relia a misteriosa carta que trouxera consigo. O remédio era antes veneno para a sua alma ulcerada; lembrava-se a felicidade que perdera.
Era isto o que padecia o coração. A consciência padecia também, porque a sociedade, que ele não vira no primeiro instante, agora lhe aparecia como um juiz inflexível, a pedir lhe contas de uma injúria sem explicação. As vezes arrependia-se do ato; outras vezes, não se arrependia, mas acusava-se de precipitado e louco. Nunca mais tristemente serevelara a inconsistência do espírito com o tempo a consciência foi calando as vozes, e com o tempo, e a distancia, e a sua índole variável, se lhe foi aquietando o coração. Aquele homem, que alguns dias antes chorava de desespero, nenhum vestígio guardara de suas lágrimas. Não se lhe apagara o amor da viúva, mas no lugar da paixão veemente, como que ficara apenas uma recordação remota e suave. Esta mudança era em parte obra do seu esforço, que buscava no esquecimento um refúgio; mas em grande parte era um efeito natural dele. Tal foi a situação em que o achou Meneses. A presença deste trouxe à memória do médico a última crise do coração. A impressão foi grande, não longa; a face do lago, que uma rajada encrespara, voltou à serenidade primitiva.
Meneses passeava de um lado para outro, a observar de quando em quando o médico. Ao seu espírito repugnava a idéia de que Félix recorresse a um meio extraordinário para sair de uma situação difícil, não sancionada pelo coração. Uma causa havia, decerto, que se lhe afigurava grave, e que ele a todo custo queria conhecer. Seus esforços convergiam para esse ponto. Instado pelo amigo, Félix aludiu à carta que recebera, mas recusou mostrá-la.
— Há nela um segredo, disse ele, que me impede de a comunicar a ninguém. Lívia tem jus ao meu respeito e possui ainda o meu amor.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.