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#Romances#Literatura Brasileira

Os Bruzundangas

Por Lima Barreto (1922)

Durante um mês, os jornais da capital do interessante país que ora nos ocupa, não deixaram um só dia de publicar telegramas do seguinte teor ou parecidos: "La Vie au Grand Air, importante revista francesa, publica o retrato do Visconde de Pancome, o destemido herói do Tiaya, e os seus traços biográficos". Um outro quotidiano dizia: "Army, Navy and Sport, célebre magazine inglês, estampando o retrato do Visconde de Pancome, essa legítima glória do nosso país, afirma que a sua ascensão ao cume do Tiaya é sem precedentes na história do alpinismo"; e assim transcreviam ou noticiavam referências de outras revistas alemãs, italianas, sírias, gregas, tcheques, etc.

Recebendo esse impulso do estrangeiro, os jornais da Bruzundanga, os mais lidos e os mais obscuros, e as revistas de toda a natureza redobraram a sua habitual gritaria em casos tais. Enchiam-se de artigos louvando o herói que fizera a Bruzundanga conhecida na Europa, afirmação essa em que logo o povo do país acreditou piamente; mostraram também com períodos bem caídos, como o fato tinha um alcance excepcional e proclamaram o homem o primeiro de todos os bruzudanguenses.

A seguir-se aos jornais, vieram os poetas louvaminheiros com as suas odes, poemas, sonetos, cantatas, erguendo às nuvens o visconde e a sua extraordinária proeza. Eles sacavam com atilamento sobre o futuro, porquanto, quando Pancome veio a ser ministro, os encheu de propinas e fartos jantares.

É ocasião de notar aqui uma singular feição dos poetas da Bruzundanga.

Todos os vates de lá, em geral, são incapazes de comparação, de critica e impróprios para a menor reflexão mais detida, e, com a sua mentalidade de parvenus aperuados, estão sempre dispostos a bajular os titulares ou os apatacados burgueses, para terem o prazer de ver mais perto as suas mulheres e filhas, pois se persuadiram que são elas feitas de outra substância diferente daquela que forma as cozinheiras e os pequenos burgueses.

Tão tolos são eles que não se lembram que tais marqueses e mais barões da sua terra são de origem tão humilde e tão vexatória em face do critério nobiliárquico que os próprios portadores de tais títulos fidalgos ocultam o mais que podem a sua ascendência. Mas é preciso voltar ao nosso Visconde de Pancome.

A custa de todas essas vociferações, o povo não permitia que ninguém lhe tocasse na reputação e ficou convencido de que o homem era mesmo um demiurgo e consubstanciou a sua admiração ingênua nesta fórmula simples: "é um bruzundanguense conhecido na Europa".

Porque a mania daquele povo é querer à força que o seu país e os seus homens sejam conhecidos no estrangeiro, embora ele não possua uma atividade, de qualquer natureza, nem mesmo um homem notável que possa atrair a curiosidade dos estranhos sobre a região e as suas coisas.

De modo que, qualquer referência a ele ou a um natural dele, se ela é favorável e elogiosa, logo alvorota o povo da Bruzundanga, que fica crente de que em todas as aldeias de países afastados não se fala em outra cousa senão na sua nação.

Quando, porém, se diz lá fora que, na sua população, há milhões de javaneses e mestiços deles (o que é verdade), imediatamente todos se aborrecem, zangam-se, lançando tristemente o labéu de vergonha sobre os seus compatriotas de tal extração.

É uma tolice deles (aí entram também muitos javaneses), pois tanto os de origem javanesa como os de outras raízes raciais têm dado inteligências e atividades que se eqüivalem. Não há este de tal procedência que sobrepuje aquele de outra procedência, nem mesmo na quantidade; os de uma origem não sobrelevam os de outra, isto dura há três séculos e poucos; e, pode-se dizer, que é uma prova perfeitamente experimental, obtida no laboratório da história. Tão bom como tão bom...

Com tal mania, não é de admirar que, de uma hora para outra, Pancome ficasse sendo o ídolo da Bruzundanga; e o governo, para premiá-lo e satisfazer a opinião pública, apressou-se em nomeá-lo embaixador junto ao governo de uma potência européia, e foi (lembro-me agora) quando embaixador, que obteve as condecorações a que aludi em capítulo anterior.

E de tal forma a população do país se convenceu da imensa inteligência, das geniais vistas do visconde, de que ele era admirado no mundo inteiro, e de que, também todos os sábios do Universo respeitavam-no religiosamente, que ao chegar ele da estranja para assumir a pasta do Exterior, toda ela correu em massa para a rua, quase lhe desatrelam, os mais entusiastas, os cavalos do carro, aclamando-o freneticamente pelas ruas em que passou, como se recebesse a cidade Júlio César vitorioso ou descartes, caso a natureza da glória deste se compadecesse com admirações irrefletidas.

(continua...)

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