Por Lima Barreto (1911)
Elas tiveram, porém, o grande e esperado efeito de comover Cogominho, Numa, as senhoras e provocar a inveja de Quitério, que devorou o orador com seu olhar miúdo. Havia-lhe no olhar também admiração pela torrente de banalidades que Canto repetia e adivinhava-se que Quitério dizia de si para si: Ah! Meu Deus! Como ele fala bem!
Inácio Costa tomou a palavra, e, em nome da comissão organizadora, disse:
“Minhas senhoras, meus senhores. O digno senador Neves Cogominho tira da civilização contemporânea a dedução do estado político que mais lhe convém para a sociedade. Segue nesse ponto desprezando a metafísica de Platão e o teologismo de Maistre, um sistema assemelhado ao de Rousseau.”
Houve alguns pigarros indiscretos na sala, mas Inácio continuou impavidamente, chegando a este curioso trecho:
“Sua individualidade una e perfeita não tem limites “extremos”, destes que estes terminam, em relação a um aspecto, onde começam quanto a um outro.”
Uma moça bocejou no silêncio profundo da sala; e Costa, mais seguro de si, continuou:
“E, na grandeza incomensurável da promiscuidade de suas feições, sentindo a visão mística das coisas, apostolando uma fé inabalável na República, Neves
Cogominho aparece com a auréola do — O MAIS DIGNO .”
Canto Ribeiro berrou fortemente — Apoiado! Inácio Costa continuou com entusiasmo:
“O Sábio estadista que aí vedes vai sempre ao encontro da equação política do momento”.
Depois desta manifestação do seu saber matemático, o futuro chefe da seção precipitou o seu discurso, rematou-o, dizendo:
“ Nas ligeiras palavras que disse, procurei esboçar o retrato deste homem, não de perfil nem de frente; mas, como Pelino Guedes , em obra conhecida, de fronte voltada para o céu, tentei retratar esse gigante político, que traduz perfeitamente a ação de um passado que se afirma no presente, como refletirá sobre o futuro, quando o historiador tiver que tratar de todo esse período da nossa vida
republicana. Saudemo-lo, senhores! Ele é O MAIS DIGNO!”
Houve palmas, vivas e Numa abraçou-o, dizendo-lhe ao ouvido:
— Estiveste muito filosófico.
Foram oferecidos em seguida mimos e Clódia, filha do Dr. Henocanti, ofertou um ramo de flores, com doces e capitosas palavras.
Quitério tirou a cabeça de dentro do tórax e ficou estático diante da sedosa alvura da moça, da sua elegância, do seu langor, da sua atração fortemente sensual.
— Quem é?
Não lhe responderam; Neves Cogominho falou com grande simplicidade, não sem comoção e, por fim, entusiasmado com o entusiasmo dos outros, agradeceu a homenagem com períodos repassados de sentimento.
Aos circunstantes foram oferecidos “chopps” e servidos em uma sala interior. Quase houve briga, quase houve bofetadas. As mãos passavam por cima das cabeças, por entre os corpos, por debaixo dos braços de outrem; e os copeiros não sabiam como servir toda aquela gente sequiosa.
Canto Ribeiro e Inácio Costa, vendo que a coisa podia degenerar em conflito, pois já havia uma disputa em um canto, gritaram:
— Vamos, rapazes! Os bondes vão partir!
Foram-se e, na sala, encostado ao balcão improvisado de “buffet”, ficou unicamente Barba-de-Bode.
Encostou-se e disse com gloriosa satisfação:
— Sim, agora posso beber. Não sou desses “avançadores” que só vêm às festas para beber.
Em seguida, voltou-se para o copeiro e fez familiarmente:
— Ó amigo! Dá-me uma “joça” dessas!
Sorveu o copo quase inteiramente de um trago, e foi cheio de loquacidade que pronunciou:
— Vocês sabem, eu cá sou de casa. Não preciso de manifestações para entrar... O homem é meu amigo... Todos esses tipos são engrossadores.
Bebeu o resto que estava no copo, e pediu:
— Mais um “chopp”.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.