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#Romances#Literatura Brasileira

Clara dos Anjos

Por Lima Barreto (1922)

Cessou de pensar em Cassi e pôs-se a cogitar no trabalho, nas gratificações e nos aumentos. Chegou à repartição, assinou o ponto, cumprimentou os colegas e chefes; e, à hora certa, tomou a correspondência a distribuir e lá correu para escritórios, casas de comércio, entregando cartas e pacotes.

Vinha tudo isto com nomes arrevesados: franceses, ingleses, alemães, italianos, etc.; mas, como eram sempre os mesmos, acabara decorando-os e pronunciando-os mais ou menos corretamente. Gostava de lidar com aqueles homens louros, rubicundos, robustos, de olhos cor do mar, entre os quais ele não distinguia os chefes e os subalternos. Quando havia brasileiros, no meio deles, logo adivinhava que não eram chefes. Almoçava frugalmente e até às cinco executava o serviço, isto é, as várias distribuições de correspondência.

Terminado o trabalho, procurava os seus colegas de arte e, aí pelas cinco, cinco e meia, metia-se no trem para a casa.

Naquele dia, conforme o seu costume, preencheu-o todo assim, sem nenhuma discrepância ou variante, como se obedecesse a um programa. Quando chegou em casa, já se fazia escuro, e os lampiões da iluminação pública estavam acesos e prontos a suceder, consoante o seu poder, à soberba luz do sol, que ia morrendo, num crepúsculo cambiante e lento, por detrás das montanhas, que se destacavam num fundo de prata, de ouro e de púrpura, na parte do horizonte em que ele se escondia.

Veio-lhe abrir a porta a mulher, que, antes de mais nada, lhe foi dizendo:

— Ah! Quincas! Você não sabe como me vi atrapalhada, hoje, aqui... Se não fosse Dona Margarida...

— Mas o que houve, Engrácia?

— Clara ficou doente de repente, pôs-se a gemer, e eu, sem ninguém, não sabia o que fazer. Felizmente, gritei por Dona Margarida, que acudiu.

— Que é que ela teve, mulher?

— Dentes, Quincas; mas uma dor muito forte.

— Ora, você mesmo! Você é uma pamonha. Então dor de dentes é moléstia que assuste ninguém?

— É que você não viu.

— Vamos ver o que há?

Dirigiu-se para o quarto da filha, que tinha o queixo amarrado num lenço dobrado, e perguntou:

— Que houve, Clarinha?

— Nada. Tenho aqui um dente furado, que me dói de quando em quando. Hoje doeu-me mais fortemente, gemi e tive que me deitar. Felizmente o remédio que Dona Margarida me deu, fez passar a dor, mas tenho o queixo inchado...

— Não é nada?

— Penso que sim — disse Clara, e acrescentou: — olhe, papai, não pude passar a limpo a música.

— Não faz mal, eu mesmo passo.

Depois ajuntou, voltando-se para a mulher:

— É preciso levar essa menina ao dentista, Engrácia, enquanto está no começo.

— Dentistas! Deus me livre!

— Por quê, mulher de Deus?

— Porque é casa de perdição, Quincas.

— Qual perdição, qual nada. Perde-se quem quer ou quem já está perdido. — Você que a leve, Quincas. Não posso sair todo o dia... Você sabe que não posso andar muito...

— Eu não posso, pois tenho de ir para o serviço.

Pôs-se a pensar, olhando a filha deitada, com os doces olhos a interrogar o pai, quando lhe surgiu um pensamento:

— Vou chamar o Meneses. Ele não é formado, mas tem prática e pode certamente fazer o que se trata. Que acha, Engrácia?

— Acho bom, se ele vier em casa.

— Ele virá, pela manhã. Almoçará com vocês e dar-lhe-ei alguma coisa.

— Você quer, Clara? — perguntou o pai.

— Aceito e acho bom. Não é preciso sair e mamãe não se incomoda.

Foi assim que Meneses entrou a tratar dos dentes de Clara, fato de que tão oportunamente Cassi tivera notícias pelo doutor Praxedes, no Méier. Para o velho doutor Meneses foi uma salvação, porquanto, embora trabalhasse, não era pago ou o era mal e irregularmente. Com o carteiro, as coisas se passavam de outra forma; e, além disso, almoçaria todo o dia — vantagem que não era de desprezar.

(continua...)

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