Por Aluísio Azevedo (1891)
— Mas, é estranho!... continuou ele a pensar; nunca sonhei assim!... Seria capaz de jurar que não sonhei—que vivi... Verdade é que nem tudo aparece claro e lúcido no meu espírito... (E procurou recordar-se). Não consigo lembrar-me do que eu fazia ontem à noite antes de adormecer... Recordo-me que pensava muito em Alzira, tanto que me pus a rezar defronte da Virgem, mas... a Virgem transformou-se em Alzira... Estaria já sonhando, ou tudo isto já seriam alucinações do meu delírio?... Depois era Alzira que tomava as feições da Virgem... Sim! lembro-me perfeitamente... Depois, sonhei que bateram lá fora e sonhei que Salomé me acordara... Surgem-me dois homens vestidos de negro e pedem-me para ir dar a extrema-unção a um moribundo... Vou... A noite era tenebrosa e só os relâmpagos nos iluminavam a estrada... Galopamos não sei quanto tempo... afinal paramos defronte de um velho castelo; subo... Receberam-me três cavalheiros...
Aproximei-me de um cadáver... reconheci
Alzira... Apertei-a nos meus braços... Ela voltou à vida... pediu-me um beijo
e... morreu! Depois... (E procurava recordar-se.) Depois... nada mais me lembro, senão que acordei já tarde, naquele quarto, sobre a minha cama... Foi tudo um sonho, não há dúvida! ...
— E, no entanto... acrescentou ele, apalpando a fronte e as mãos; no entanto, dir-se-ia que ainda conservo o frio que me comunicou o cadáver!... É singular! muito singular!...
Despertou deste devaneio com a voz de Robino, que acabava de aparecer à janela, metendo a cabeça para dentro da sala.
— O senhor vigário deixa-me entrar por aqui?... exclamou ele.
— Quem é?
— Sou eu, senhor vigário. A tia Salomé, de má, fechou-me a porta! O senhor vigário consente que eu entre?...
— Sim.
Robino saltou a janela e foi ter com o padre, que continuava entregue à sua profunda meditação.
— Boa noite, senhor vigário, disse ele. A tia Salomé não tinha razão para me fechar hoje a porta! ... Eu não estive na taberna do Bruxo!... Eu fui ver o enterro da tal moça de Paris, que estava na avenida de Blancs-Manteaux ...
— Hein?! Que dizes tu?! exclamou o pároco, voltando-se para ele com súbito interesse.
— É verdade, senhor vigário, que lindo enterro! Parecia uma procissão!...
— De quem era o tal enterro?...
— Da tal moça que veio doente para o castelo de Aurbiny... Ia na frente um carro com o caixão, todo enfeitado de plumas pretas e amarelas, depois...
Ângelo interrompeu-o:
— Estás dizendo a verdade?...
— Pois se venho agora mesmo de lá, a correr, para não encontrar a porta fechada?... A tia Salomé disse-me que não me deixaria entrar, se eu viesse depois das Trindades!...
— Como se chamava a morta?...
Rabina fez um esforço para lembrar-se.
— Chamava-se... Ora! estou com o nome debaixo da língua!... Chamava-se...
Ah! Condessa Alzira!
— Não era um simples sonho!... murmurou Ângelo, deixando-se cair na cadeira, a sacudir tristemente a cabeça. Não era um simples sonho!...
CAPÍTULO VI
Mais forte que a morte
Salomé, que entrava trazendo na mão a bandeja com a merenda estacou, ao dar com Rabina
— Por onde entrou este mariola?...
— Pela janela, disse o rapaz.
— Pela janela?!
— Foi o Sr. vigário que me deu licença... acrescentou Rabina coçando a nuca e passeando o olhar entre a criada e o padre.
— Pois o Sr. vigário fez muito mal!... declarou a mulher, depondo a bandeja sobre a mesa. Fez muito mal em deixar este tratante saltar a janela! Assim ele, nunca tomará caminho! Não sei o que quer dizer um biltre que...
Ângelo cortou-lhe a frase, segurando-lhe uma das mãos com ambas as suas.
— Minha boa Salomé, interrogou vivamente interessado; diga-me com franqueza uma cousa: está bem certa de que eu ontem à noite não saí de casa?... Vamos! responda-me lealmente!
— Pior vai o negócio! ... pensou a criada, e acrescentou em voz alta:—Como quer que lhe diga que não, Sr. vigário?... Ângelo voltou-se para o pequeno:
— E tu, perguntou-lhe, estás bem certo de que viste o enterro da...
— Da Condessa Alzira?... acabou Rabina Ora se estou! Pois se de lá venho! — Eu cada vez entendo menos... resmungou Salomé.
E disse, de si para si:— Muito custa a mentir, mesmo por conta alheia!...
Depois, continuou em voz alta, falando ao cura, que parecia muito preocupado: — O verdadeiro, Sr. vigário, é tomar a sua merenda, que está esfriando, e deixar-se de querer saber de cousas que se não explicam! ... Boa noite! Vou acender o altar da Virgem... Agora, veja se deixa ficar aí, a cismar, em vez de fazer a sua refeição...
E, dando uma palmada na cabeça de Rabina
— Anda tu também, daí, ó coisa-ruim!... — Boa noite, senhor vigário!
Ângelo ao ficar só, cruzou as mãos sobre o ventre e fechou as sobrancelhas fixamente, no mais intenso ar de interrogação e de pasmo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.