Por Aluísio Azevedo (1897)
— Creio, meu caro doutor, que a sociedade é para os homens medíocres o que o palco é para as atrizes de segunda ordem — simplesmente um meio de lhes realçar as graças e emprestar encanto às que o não possuem. Toda a mulher feia, que souber prepararse bem, será bela no palco; todo o homem vulgar, que souber repetir de orelha certos conceitos alheios e guardar silêncio quando for preciso, será nas salas um homem elegante e do bomtom. Para aquelas, é preciso pintar os olhos, fazer um sinal na face, dar tinta aos lábios, arranjar os cabelos; para estes, é necessário um título qualquer, algum dinheiro, saber vestirse à moda, conhecer certos prazeres, falar de óperas e cantores, mulheres e cavalos. E aí tem o senhor como se ama uma mulher bonita ou um homem de salão; ambos com os seus competentes diplomas — uma das platéias, e outro das salas. Entretanto, se o senhor desejar uma mulher verdadeiramente bonita, bonita sem artifícios, sem alvaiade, sem carmim, sem cabeleira, não a irá buscar certamente ao teatro; do mesmo modo, se o senhor quiser um homem que sirva de marido, não o deve procurar nos bailes, porque ele já não existe. Tanto aquele que trouxer para o seu lar uma étoile das rampas do teatro, como aquela que levar para casa um leão caçado ao som de valsas, sofrerá tremenda decepção.
— V. Exa. então não aceitaria para esposo um herói da moda?...
— Está claro que não. Pois eu queria lá marido para os outros?... Queria lá um marido que passasse algumas horas no lar apenas por obrigação doméstica, e viesse impressionado com a toilette da viscondessa tal, como o perfume da baronesa tal e tal, e com os amores escandalosos de todas as mulheres? Para meu marido desejaria eu um homem tão bom, que me não desse ocasião de desejar outro melhor; mas não o procuro, nem faço o menor empenho em o encontrar.
E levantandose, observou:
— Olhe! está terminada a quadrilha e o meu par desta valsa não tarda a vir buscarme.
— Mas V. Exa. não respondeu à minha principal pergunta...
— Se o virei a amar?... é muito natural que não.
E separaramse.
Gabriel só falou depois com Ambrosina em casa do pai dela, na situação em que o deixamos no capítulo anterior.
Vejamos agora o que disseram os dois neste novo encontro:
— Mas, por que faz o Sr. essa cara tão esquisita, ao saber de quem sou filha?. . . perguntou a linda moça, oferecendo uma cadeira a Gabriel.
— O comendador demorase! averiguou este, assentandose.
— Depende de nós. Meu pai recolhese sempre depois do jantar e não aparece antes das nove horas da noite, a não ser que alguém o procure. Podemos estar à vontade. Nem sabem até que o senhor cá está. Conversemos sem constrangimento...
— Nesse caso, vou falarlhe com toda a franqueza. Digame uma coisa: A senhora, quero dizer, V. Exa....
— Não! trateme mesmo por Senhora.
— Obrigado. A senhora anda a par dos negócios de seu pai?...
— Valhame Deus! eu sei cá dos negócios de meu pai! Que posso saber eu disso?.
— Não sabe então que ultimamente ele comprou as dívidas.
— As dívidas do coronel Pinto Leite? Oh! mas isso foi um escândalo; nem há no Rio quem o não saiba. Aqui em casa não se fala noutra cousa! Porém, a que propósito vem tudo isso? o que tem o senhor com esse negócio?...
— Muito mais do que se persuade: e, uma vez que o fato já anda pela imprensa, posso dizerlhe com franqueza que sou eu a tal pessoa que pagou ao senhor seu pai as dívidas do coronel.
— O senhor?!... interrogou Ambrosina com a mais completa surpresa. E atravessou Gabriel com um olhar penetrante que nem uma sonda. "Ele!" dizia ela consigo. E procurava descobrirlhe alguma cousa, algum indício, por onde acreditasse nos seus consideráveis bens de fortuna.
— Sim, minha senhora; não desejava entrar nestas explicações, mas...
Então, o senhor é muito rico?...
— Um pouco, disse Gabriel, abaixando os olhos. Quanto possui?...
— Diz Gaspar que uns mil contos de réis...
— Mil contos!... repetiu Ambrosina, e transformou logo a fisionomia com um sorriso, que ela não tinha até aí dispensado a Gabriel.
Este não deu por ele, e balbuciou:
— Sou rico por acaso, sem a menor glória... herdei o que possuo de minha mãe, que já por sua vez herdara de meu pai...
— Mas, nada disso explica o que há de comum entre o senhor e o coronel, e o que o levou a pagar as dívidas de um velho idiota...
— Perdão, minha senhora, tomo a liberdade de prevenila de que em minha presença não consinto ofenderem o coronel. Ele é pai de meu padrasto; é por bem dizer, meu avô; sem contar que lhe devo mil obrigações herdadas de minha mãe. Foi o coronel quem a esta recolheu da miséria, e quem a educou...
— O senhor, por conseguinte, pagou uma dívida de gratidão?...
Não paguei coisa alguma, minha senhora; os serviços que devo ao coronel não se podem pagar, são inestimáveis...
— O Médico Misterioso é então viúvo de sua mãe...
— Sim minha senhora; e, nem só é meu padrasto, como também é o meu único amigo, o meu confidente, o meu guia, o meu mestre!
— Que entusiasmo! E ele sabe do nosso primeiro encontro?...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.