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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— Esse importante e mysterioso negocio, — disse Conrado levantando-se, e com voz firme e pausada, é de summa importancia, e precisa muito da sombra do segredo e do mysterio, principalmente da parte de vossa senhoria. É cousa muito simples ; e para evitar mais perguntas, vou explical-a em poucas palavras. A pouco tempo o senhor Moraes comprou como escrava uma menina por nome Rozaura a um negociante de escravos, para servir de mocamba a uma menina chamada Estella, filha do senhor Moraes e da senhora Dona Adelaide.

— Até ahi tudo é exactissimo, — murmurou Moraes.

—- Ora, sem o saberem, — continuou Conrado, comprarão uma pessoa que nasceo livre, e que por fraude e malicia de uma mulher, que hontem falleceo, foi reduzida á escravidão. Hontem eu procurei o senhor Moraes, e pedi-lhe o resgate dessa menina offerecendo-lhe a quantia que quizesse; mas elle recusou-se obstinadamente. Hontem eu ainda não tinha provas irrecusaveis; hoje, mercê de Deos, as tenho solidas e irrefragaveis, e venho apresental-as e exigir que me seja entregue essa menina, sobre a qual tenho direitos sagrados.

— Direitos sagrados . — exclamou o major, — esta ainda é mais importante. Quaes são elles ?

— Já hontem declarei ao senhor Moraes, e agora o repito : sou pae de Rozaura.

Há! Há! — gargalhou o major com riso aparvalhado. — O senhor é o pae e não poderá fazer-nos o favor de dizer quem era a mãe ?

Conrado olhou para Adelaide, e empallideceo ; ella baixou os olhos e corou. Ambos tivérão commiseração do dito inconsciente do pobre velho.

Não ha necessidade de saber-se quem é a mãe, — redarguio Conrado ; — é um segredo, que desejo guardar, e que só em ultima necessidade revelarei para salvar minha filha da escravidão e da deshonra.

Conrado carregou nesta ultima palavra fitando os olhos em Moraes, que percebendo-lhe o alcance estremeceo como o réo que vê seu crime descoberto.

— Estou prompto, continuou Conrado, — a indemnisal-os da somma por que comprárão a menina, porque sei que o fizerão em boa fé.

— É debalde insistir, senhor Conrado, replicou Moraes,' — nós não disporemos della, nem mesmo que o senhor offereça toda a sua fortuna. A paternidade, que Va chama a si, e de que não queremos duvidar, nada signiica; a maternidade é o que importa neste caso, e emquanto Va Sa não provar que Rezaura é filha de mãe livre...

-— Nada mais facil, — atalhou Conrado; — mas quero guarda resse segredo, porque importa a honra de uma mulher, a quem consagro... a mais alta estima.

— Ah ! nesse caso só Va Sa tentando os meios judiciaes; e mesmo assim lhe será talvez necessario desembuchar esse segredo. Devo notar-lhe tambem que nós não maltratamos Rozaura ; pelo contrario a consideramos como fazendo parte da familia, e a tratamos com o mimo e carinho que ella merece. A minha Estella a quer como si fosse sua irmã, e minha mulher a extremece, como si fosse sua filha.

— Acaba Va sa dc proferir a meio uma verdade mais verdadeira do que imagina, — disse Conrado com certo sorriso de melancolica ironia, cuja significação só Adelaide e Frei João comprehenderão.

— Mas, senhor Moraes, continuou Conrado, creio que neste negocio poderei pres cindir dos meios judiciarios. A infeliz mulher que escravizou Rozaura, falleceo hontem, mas antes de expirar fêz confissão publica do seu crime; o sacerdote, que a ouvio de confissão, foi o meu amigo, que aqui se acha presente, o senhor Frei João de Sancta Clara, de cujas virtudes, prudencia e illustraçüo não é dado duvidar. Em presença delle, minha e de mais duas testemunhas as velha fez a seguinte declaração, que tomamos por escripto, e que passo a ler.

Conrado tirou da algibeira e leo com voz firme e clara o papel, cujo conteúdo já conhecemos. Finda a leitura decorrerão silenciosamente alguns instantes de angustia e inquetação para uns, e de estupefacção para outros. A angustia estava no coração de Conrado, de Frei João e de Adelaide, que comprehendião perfeitamente a critica situação em que se achavão. Póde-se idear, mas não explicar, a penivel posição em que se achavão aquellas duas almas nobres em presença de uma mulher, cuja reputação ião ver-se talvez na dura necessidade de sacrificar para salvar a filha da escravidão e da deshonra ; de uma mulher, que não obstante ter no seu passado uma nodoa muito desculpavel, tinha-se mostrado por seu ulterior comportamento digna de todo o respeito e estima da sociedade.

A estupefacção era por parte do major e de seu genro, que a principio sentirão—se inteiramente desconcertados e como que aturdidos com a leitura do documento, que Conrado apresentára. Todavia não quizerão dar-se ainda por vencidos. O primeiro, já treslendo algum tanto, não quiz dar credito ao que via e ouvia, e começou a pensar lá de si para si que toda aquella scena não passava de manejo preparado pelo seu ex-capatáz, que por aquella maneira procurava vingar-se delle por lhe ter recusado a mão de sua filha. O genro dominedo pela insensata paixão, que concebera pela gentil Rozaura, e allucinado pelo ciume, que o sogro lhe excitára n'alma fazendo-lhe crer que Conrado cobiçava a rapariga para sua amacia, fechava tambem os olhos á evidencia, e não via nessa triste e pungente scena mais que embuste e velhacaria.

(continua...)

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