Por Visconde de Taunay (1872)
Assente uma vez nesta resolução, ergueu-se do leito em que jazia prostrado pelo mais cruel desalento e, com algum custo, saiu para o terreiro, abrindo cautelosamente a porta da casa, a fim de não acordar os companheiros de quarto. Uma vez fora, sentou-se num tronco de madeiro e ali ao ar fresco e acariciador da madrugada, entrou com mais tranqüilidade a pensar no caso.
Seria uma hora depois de meia-noite.
Estavam os espaços como que iluminados por essa luz serena e fixa que irradia de um globo despolido; luz fosca, branda, sem intermitências no brilho, sem cintilações, e difundida igualmente por toda a atmosfera.
Haviam j á os galos cantado uma vez, e, ao longe, muito ao longe, de vez em quando, se ouvia o clamor das anhumapocas.
Levantou-se de repente Cirino.
Depois de alguma vacilação, deu uma volta por toda a habitação, pulando os cercados, e tomou o ramo do frondoso laranjal, a cuja espessa sombra se abrigou por algum tempo. Achegou-se, em seguida, à cerca dos fundos da casa e parou no meio do pátio, olhando com assombro para uma janela aberta.
Um vulto ali estava!... Era o dela; Inocência... Não havia duvidar.
A principio, nenhum movimento fez; mas, depois, lentamente se foi retirando e aos poucos fechou o postigo.
Cirino deu um só pulo e de leve, muito de leve, bateu apressadas pancadas na tábua da janela.
—Inocência!... Inocência!... chamou com voz sumida, mas ardente e cheia de súplica.
Ninguém lhe respondeu.
—Inocência, implorou o moço, olhe... abra, tenha pena de mim... Eu morro por sua causa...
Depois de breve tempo, que para Cirino pareceu um século, descerrou-se a medo a janela, e apareceu a moça toda assustada, sem saber por que razão ali estava nem explicar tudo aquilo.
Parecia-lhe um sonho.
Quis, entretanto, dar qualquer desculpa à situação e, fingindo-se admirada, perguntou muito baixinho e a balbuciar:
—Que vem... mecê... fazer aqui?... já... estou boa.
Da parte de fora, agarrou-lhe Cirino nas mãos.
—Oh! disse ele com fogo, doente estou eu agora... Sou eu que vou morrer...
porque você me enfeitiçou, e não acho remédio para o meu mal.
—Eu... não, protestou Inocência.
—Sim... você que é uma mulher como nunca vi... Seus olhos me queimaram... Sinto fogo dentro de mim... Já não vivo... o que só quero é vê-la... é amá-la, não conheço mais o que seja sono e, nesta semana, fiquei mais velho do que em muitos anos havia de ficar... E tudo, por quê, Inocência?
—Eu não sei, não, respondeu a pobrezinha com ingenuidade. —Porque eu amo... amo-a, e sofro como um louco... como um perdido.
—Ué, exclamou ela, pois amor é sofrimento?
—Amor é sofrimento, quando a gente não sabe se a paixão é aceita, quando se não vê quem se adora; amor é céu, quando se está como eu agora estou,
—E quando a gente está longe, perguntou ela, que se sente?... —Sente-se uma dor, cá dentro, que parece que se vai morrer.. Tudo causa desgosto: só se pensa na pessoa a quem se quer, a todas as horas do dia e da noite no sono, na reza, quando se pede a Nossa Senhora, sempre ela, ela, ela!... o bem amado... e...
—Oh! interrompeu a sertaneja com singeleza, então eu amo... —Você?
indagou Cirino sofregamente.
—Se é como... mecê diz...
—É é... eu lhe juro!...
—Então... eu amo, confirmou Inocência. —E a quem?... Diga: a quem?
Houve uma pausa, e a custo retrucou ela ladeando a questão:
—A quem me ama.
—Ah! exclamou o jovem, então é a mim... é a mim, com certeza, porque ninguém neste mundo, ninguém, ouviu? é capaz de amá-la como eu... Nem seu pai... nem sua mãe, se viva fosse... Deixe falar seu coração... Se quer ver-me fora deste mundo... diga que não sou eu, diga!...
—E como ia mecê morrer? atalhou ela com receio.
—Não falta pau para me enforcar, nem água para me afogar.
—Deus nos livre! não fale nisso... Mas, por que é que mecê gosta tanto de mim? Mecê não é meu parente, nem primo, longe que seja, nem conhecido sequer...
Eu lhe vi apenas pouco tempo... e tanto se agradou de mim?
—E com você... não sucede o mesmo? perguntou Cirino.
—Comigo?
—Sim, com você... Por que é que está acordada a estas horas? Por que é que não pode dormir?... que a cama lhe parece um braseiro, como a mim também parece?... Por que pensa em alguém a todo o instante? Entretanto, esse alguém não é primo seu, longe que seja, nem conhecido sequer?...
—É verdade, confessou Inocência com doce candura.
Depois quis emendar a mão:
—Mas, quem lhe disse que vivo pensando em mecê?
—Inocência, implorou o moço, não queira negar, vejo que sou amado...
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.