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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

— Não posso fazer tal coisa.

Timóteo recuou instintivamente quando ouviu as últimas palavras do desconhecido. Este porém, em um instante o tinha segurado pelos pulsos enquanto o negro lhe passava uma corda nos braços.

— Como é que me fazem isto ? — perguntou Timóteo — Querem matar-me ?

— Não, senhor — disse o cabra. — Você há de chegar vivo, bem vivo a seu destino, ainda que o Cabeleira se meta a tirá-lo das nossas unhas, o que eu duvido.

— E a minha venda ?

— A sua venda fica aí; nós não a levamos.

— Mas... roubam-me tudo, tudo.

— Não tem você roubado a tanta gente ?

— Ora ! Feche bem as portas, e avie-se que é tempo. Se não quer ir pelos pés, irá amarrado como um porco.

Timóteo aceitou, contra vontade, já se vê, e por não ter outro remédio a situação que lhe afigurou irrevogável.

—Vista o seu gibão, que você vai ser apresentado a gente nobre.

— Ah ! — disse o vendeiro, respirando, mas não sem grande espanto, que mal disfarçou.

Pouco depois os três convivas seguiam, a marcha batida, pela estrada de Santo Antão. Tendo deixado a taberna, cujas chaves o Timóteo levava consigo por permissão dos desconhecidos, haviam estes pouco adiante entrado com ele no mato para tomarem dois cavalos que ali tinham deixado ocultos. Em um deles montou o negro, e no outro montaram o cabra e o vendeiro, este passado de medo, que o acaso não era para menos, aquele guardando-o na garupa, e tendo uma faca nua na mão. Tomaram novamente a estrada, e logo desapareceram como sombras fantásticas, no fundo da escuridão.

Conforme a deliberação tomada no senado da câmara pelo governador, capitães mores e coronéis de ordenanças, a busca dos malfeitores tinha de ser dada ao mesmo tempo nas matas dos respectivos distritos.

— Estes bandidos — dissera o governador — fazem-nos maior dano do que a fome, a peste e a guerra. Matam a sangue frio, para roubarem a fazenda àquele que pacificamente a ganhou com o suor do seu rosto. Penetram nas casas, nas lojas, nos engenhos, nos próprios templos, e, tirando daí o fruto da economia e o trabalho honesto e esforçado da propriedade alheia, vão consumi-lo nas suas orgias e delírio. A sua passagem o pobre não fica privado somente das suas migalhas; fica também privado da sua honra, da honra das suas filhas; se não atrevem a fazer hoje o mesmo aos ricos e nobres, amanhã o farão, animados por um longo passado para o qual não posso volver os olhos senão com tristeza, porque ele diz que aos meus predecessores faltou animo para esmagar a hidra do crime, ou que foram eles indiferentes aos males privados e publicados que resultaram da sua impunidade dela. Não quero que o meu nome passe à história de envolta com essa impunidade; há de passar com o lustre da autoridade que se faz respeitada por cumprir com zelo e coragem os seus deveres, entre os quais se conta o de castigar os delinqüentes. Fio que os senhores capitães mores e coronéis hão de auxiliar a administração, que, nestes intuitos, não atende senão à glória de sua majestade, que Deus guarde, e a paz e felicidade dos povos. A falta de tropas será suprida pela criação de milícias provisórias, e locais para o fim único de acabar com os coutos dos facinorosos; e a de dinheiro sê pelo erário régio, que segundo me autorizou sua majestade por carta firmada por sua real mão, adiantará por empréstimo a quantia necessária para a mantença dessas tropas até que de todo se tenham aniquilado os coutos. O erário será ressarcido das quantias que houver adiantado, por meio de um imposto que se lançará para o dito fim sobre os povos dos distritos rurais, ou dos que ficam distantes desta vila duas léguas, atendendo-se a que a estes o benefício da extinção dos coutos ocasiona particular proveito.

Nenhum dos convocados teve que opor ao pensamento e vontade do

governador, conhecido como uma autoridade arbitrária. Todos, ao contrário, votaram por estas idéias, certos de que se atendia por tais meios a uma necessidade pública da maior magnitude. "José César governou arbitrariamente, é verdade, diz um historiador, mas as suas arbitrariedades raras vezes deixaram de ter um fundo de justiça. Na punição dos delinqüentes foi infastigável".

Chegado a seu distrito, cada capitão mor tratou de levantar a milícia volante, a qual foi formada dos indivíduos solteiros, maiores de vinte e menores de quarenta anos, com exclusão somente daqueles que por si dessem outrem.

Não foram poucas as dificuldades que tiveram de vencer para que se formassem os contingentes, destinados a pacificar o interior.

(continua...)

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