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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

— D. Elvira, - lhe disse com voz grave e comovida, — se a senhora é um anjo em sua casa, nos salões do baile é uma deusa. O meu coração há muito já lhe pertence; sinto que o meu destino de hoje em diante depende só da senhora. Funesta ou propícia, a senhora será sempre a minha estrela nos caminhos da vida. Creio que me conhece bastante para acreditar na sinceridade de minhas palavras. Sou senhor de uma fortuna considerável; tenho posição honrosa e respeitável na sociedade; mas não poderia jamais ser feliz, se a senhora não consentir em partilhar comigo esses bens, que a fortuna prodigalizou-me.

Estas palavras de Álvaro, tão meigas, tão repassadas do mais sincera e profundo amor, que em outras condições teriam caído como bálsamo celeste sobre o coração de Isaura a banhá-lo em inefáveis eflúvios de ventura, eram agora para ela como um atroz e pungente sarcasmo do destino, um hino do céu ouvido entre as torturas do inferno.

Via de um lado um anjo, que, tomando-a pela mão com um suave sorriso, mostrava-lhe um éden de delícias, ao qual se esforçava por conduzi-la, enquanto de outro lado a hedionda figura de um demônio atava-lhe ao pé um pesado grilhão, e com todo o seu peso a arrastava para um gólfão de eternos sofrimentos.

É que a pobre Isaura, cheia de sustos e desconfianças, durante uma pausa tinha notado os movimentos do infame Martinho, quando encostado ao umbral da saleta com um papel na mão, parecia examiná-la com a mais minuciosa atenção. Aquela vista produziu nela o efeito de um raio; não duvidou mais que estava descoberta, e irremissivelmente perdida para sempre. Súbita vertigem lhe escureceu os olhos, pareceu-lhe que o chão lhe faltava debaixo dos pés, e que ia sendo tragada pelas fauces de um abismo imensurável. Para não cair foi-lhe preciso agarrar-se fortemente com ambas as mãos ao braço de Álvaro, arrimando-se em seu peito.

— Que tem, minha senhora? — perguntara-lhe este, assustado. — Está incomodada?...

— Algum tanto, — respondeu Elvira com voz desfalecida e arquejante, e reanimando-se pouco a pouco. — Foi uma dor aguda... uma pontada deste lado... mas vai passando... não estou acostumada com este aperto... o remoinhar da dança me fez mal.

— Mas há de acostumar-se em pouco tempo — replicou-lhe Álvaro, segurando-lhe uma das mãos e sustendo-a com um braço pela cintura. - A senhora nasceu para brilhar nos salões... mas, se quer retirar-se...

— Não, senhor; continuemos; já agora estamos na final...

Com estas respostas evasivas Álvaro tranqüilizou-se, e em razão dos movimentos rápidos da quadrilha na marca final, que imediatamente seguiu-se, não pôde notar a extrema palidez e profundo transtorno das feições de Elvira. A infeliz já não dançava, arrastava-se automaticamente pela sala; seu espírito não estava ali, não ouvia nem via outra coisa senão a figura repugnante do Martinho, postada como esfinge ameaçadora junto à porta da saleta, para a qual ela volvia de quando em quando olhos cheios de ansiedade e pavor.

E o sangue todo lhe refluía ao coração, que lhe tremia como o da pomba que sente estendida sobre o colo a garra desapiedada do gavião.

Em tal estado de susto e perturbação, Isaura não atinava com o que devia responder àquela tão sincera e apaixonada declaração do mancebo. Guardou silêncio por alguns instantes, o que Álvaro interpretou por timidez ou emoção.

— Não me quer responder? — continuou com voz meiga, — uma só palavra é bastante...

— Ah! senhor, — murmurou ela suspirando, o que posso eu responder às doces palavras que acabo de ouvir de sua boca? Elas me encantam, mas...

Elvira interrompeu-se bruscamente; um súbito estremecimento agitando o braço de Álvaro o fez olhar para ela com sobressalto e inquietação.

— É ele!... — este som sussurrou-lhe pelos lábios como um gemido rouco e convulsivo; acabava de avistar Martinho, entrando na sala em que se achavam, e sentiu mortal calafrio percorrer-lhe todo o como.

— Desculpe-me, senhor — continuou ela — não é possível por hoje ouvir suas doces palavras; sinto-me mal; preciso retirar-me. Se o senhor tivesse a bondade de levar-me onde está meu pai...

— Por que não, D. Elvira?... mas oh!... como está pálida!... está sofrendo muito, não é assim?... quer que eu a acompanhe?... que lhe chame um médico?... aqui mesmo os há...

— Obrigada, senhor Álvaro; não se inquiete; isto é um mal passageiro, cansaço talvez; em chegando a casa ficarei boa.

— E quer então retirar-se sem me deixar uma só palavra de consolação e de esperança?...

— De consolação talvez, mas de esperança...

— Por que não?

— Se nem eu mesma posso tê-la...

— Então não me ama...

— Amo-o muito.

— Então será minha...

— Isso é impossível...

— Impossível!... que obstáculo pode haver?...

— Não sei dizer-lhe, senhor; minha desgraça.

(continua...)

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