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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Quem não enxergar nos poemas do Uruguai, do Caramuru e depois, no da Assunção de Frei S. Carlos e nas obras de Valentim, de Xavier das Conchas e de outros artistas a independência do Brasil, que no fim de alguns lustros passou dos cantos dos poetas e dos quadros e trabalhos da arte para os clubs dos políticos, não enxerga a luz da verdade e a origem real dos fatos

III

O primeiro dia em que se abriu o Passeio Público aos habitantes da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro foi, como era natural, de júbilo e de festa para a população, e de justa ufania para o vice-rei e para os artistas a quem era devida aquela abençoada obra. Contraria-me não pouco a falta de informações fidedignas a respeito das festas que tiveram lugar então; porque não hesitaria em descrevê-las, se para o fazer me achasse habilitado.

Nem sei mesmo em que dia e em que mês do ano de 1783 foi passado esse aprazível fato. Mas bem podia ter sido o mês de agosto, e no dia de S. Bartolomeu, porque, pelo correr da noite, rebentou uma tremenda ventania, que pôs o mar em fúria e a terra em susto.

Mestre Valentim, depois de receber os cumprimentos do vice-rei e de fartar-se com o seu amigo Xavier das Conchas de ouvir, no Passeio Público, elogios às suas obras, recolhera-se à casa, levando consigo o irmão-artista, o bom Xavier, para regalar-se com ele, fazendo honra a uma excelente ceia que mandara preparar.

Os dois amigos tinham-se apenas sentado à mesa e, depois do primeiro prato, enchido os copos de rubro e odorífero vinho, quando as janelas da casa bateram com estrondo ao impulso do vento desenfreado, que começou a rugir como um tigre embravecido.

Mestre Valentim estremeceu e tornou-se pálido.

– Que é lá isso? – perguntou Xavier.

– É a tempestade – murmurou Valentim.

– Que nos importa agora a tempestade! Tens medo de vercair sobre nós esta casa, derribada pela violência dos tufões? Ah! Reparo agora que ela não é de pedra e cal; mas está, sem dúvida, feita com boas madeiras do Brasil e as nossas boas madeiras valem pedra e ferro.

– E que tenho eu com a fortaleza desta casa? Que mal me vaiem que ela seja ou não derribada pelo vento?

– Essa é boa! Então não havia mal em ficarmos ambos esmagados? Que diabo é, pois, que te preocupa?

– O meu coqueiro, Xavier! O meu coqueiro! Esta ventania vaiatirá-lo da cascata abaixo. É uma tempestade como nunca vi.

Xavier desatou a rir.

– Sim. Ri, ri e bebe vinho. Os pavilhões estão fechados, e ovento nem depenará os teus pássaros, nem escamará os teus peixes. Não é assim, egoísta?

Xavier ria-se cada vez mais, e comia e bebia sem lhe importar a tempestade.

– Mas quem disto tem culpa é o Sr. Luís de Vasconcelos! –exclamou Valentim. Quis por força um coqueiro enorme sobre a cascata, um coqueiro artificial que lhe lembrasse uma palmeira que ele bem podia maldizer, e eis aí o resultado.

– Mestre – disse Xavier – come e bebe, e deixa o vento. Pormais que te exasperes e grites, não o farás cessar. Ceiemos, e amanhã iremos ver como passou à noite o coqueiro.

Valentim deixou-se finalmente convencer, e acabou por zombar dos seus próprios temores. Ceou, pois, conversou, riu-se e gracejou até depois da meia-noite, que foi quando Xavier lhe disse adeus e retirou-se.

A tempestade tinha completamente serenado. A noite mostrava-se clara e fresca. A lua brilhava no céu.

Mestre Valentim não se pôde conter. Saiu de casa, penetrou no Passeio Público por uma portinha que havia ao lado esquerdo, perto do terraço, e cuja chave ainda tinha em seu poder. Correu para a cascata e soltou um grito de prazer, vendo de pé, firme e sem a menor quebra e dano, o seu delicado coqueiro.

Foi tão grande o seu prazer que partiu logo em direitura à casa de Xavier, e bateu-lhe à porta com quanta força pôde.

Xavier dormia, já a sono solto. Acordou, porém, sobressaltado, levantou-se, e abrindo uma janela, perguntou de mau humor o que dele queriam a tais 10 horas.

– Sou eu, Xavier – disse-lhe Valentim.

– Oh! Mestre. Que aconteceu?

– Uma felicidade: venho dizer-te que o meu coqueiro está salvo.

– Maldito seja o teu coqueiro, que te fez cortar-me o maisbelo sono que tenho dormido em minha vida! – exclamou Xavier, trancando a janela.

Valentim voltou para casa, rindo-se às gargalhadas da peça que acabava de pregar a Xavier.

Do que se passou no dia da abertura do Passeio Público do Rio de Janeiro nada mais posso adiantar. Contentem-se, pois, os curiosos com a notícia da tempestade e do susto de mestre Valentim, que são fatos positivos, embora de pouca importância.

(continua...)

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