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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Agora que fica já referida a historia do passado de Innocencio, é justo dizer duas palavras sobre o seu physico, e alguma cousa mais sobre o seu caracter.

Innocencio vai fazer vinte e sete annos; é alto, delgado, pallido, e sympathico; tem sobretudo uma fronte elevada, onde se lê claramente uma bella intelligencia, e olhos pardos e cheios de doçura, em que transluz a bondade.

Disse que Innocencio vai completar vinte e sete annos, e devo accrescentar que a certos respeitos parece não ter mais de quinze ou dezeseis ; une a um enthusiasmo de poeta a inexperiencia de um menino.

Bom até ao extremo, honrado como os que mais o são, de consciencia a mais escrupulosa, severo sempre para comsigo mesmo, indulgente sempre para com os outros, era sobretudo credulo como a infancia, e não calculava jamais nem com a hypocrisia, nem com a perfidia dos homens.

Ate á idade a que tinha então chegado, vivera constantemente afastado das luctas e das agitações do mundo, e só occupado com os seus estudos, cultivando apenas a sociedade oenqrosa e leal de alguns dos collegas das aulas.

Entrava agora finalmente no mundo social com a cabeça cheia de utopias e o coração cheio de amor. Era enthusiasta do bello, da virtude, e escravo do dever : amava com ardor a patria e desejava servil-a ; amava os homens e desejava ser-lhes util.

Embora fosse modesto, Innocencio tinha consciencia de que valia alguma cousa, e ufanava-se dos conhecimentos e da illustração que possuía, porque podia com a sua intelligencia esclarecida prestar serviços ao seu paiz.

E emfim, para remate completo e perfeito desta natureza tão propria para ser objecto e victima das zombarias e dos enganos do mundo, Innocencio era poeta, e podia, se quizesse, brilhar como tal aos olhos dos homens.

Desculpem-me se deixo em silencio os deeitos deste mancebo : os seus defeitos sem difficuldade se adivinhão, porque naturalmente devem corresponder á exaggeragão das suas boas qualidades.

Deixei Innocencio ainda ha pouco á mesa do almoço; agora vou encontral-o no seu quarto.

Está deitado, mas não dorme, nem descança; medita: em que medita ?... Elle lá o sabe; sonha talvez, sonha com um futuro de flores, com triumphos, com amor, com a gloria: sonha com illusões : não é assim que sonhão todos os poetas?...

Levantou-se, e foi sentar-se a uma mesa, abrio a sua carteira de viagem, delia tirou papel, pennas e um pequeno tinteiro, e pôz-se a escrever.

Escreve no seu diario as lembranças e impressões do dia, a cujo termo ainda não chegou.

Realmente, ha n'esse cuidado pressa demais.

Sorrio e suspirou escrevendo um nome; esse nome é Christina.

É provavel que se chame Christina a moça com quem elle veio no carro do trem do caminho de ferro ; não é provavel, é certo, porque sem necessidade já escreveu três vezes o mesmo nome, e o repete docemente dez vezes de cada vez que o escreve uma.

Melhor! esqueceu a prosa, e compõe versos: é um canto que improvisa, e com tanta facilidade e promptidão que no fim de duas horas escreve o ultimo verso da vigesima e derradeira estrophe.

Mas nesse momento rebentou aos ouvidos do mancebo uma gargalhada homeryica.

Innocencio voltou a cabeça e vio seu padrinho encostado á sua cadeira.

— Estava ahi, meu padrinho ?...

— Sim, e li o teu canto, que me fez rir.

— Porque?... achou-o máo?

— Pessimo, porque me parece excellente.

— Não o comprehendo.

— Pois é facil: quem escreve versos como esses...

— Está apaixonado, não é isso?... confesso que tem razão.

— A paixão é o menos, porque a paixão apaga-se.

— Conforme...

— Apaga-se.

— Admitíamos isso ; e que mais então ?...

— É que quem escreve versos camo esses, ainda que nunca mais escreva outros, nem por isso deixará de ser sempre poeta pela cabeça e pelo coração, e está por conseqüência destinado a ser uma alma de outro mundo desterrada neste, onde não encontrará nunca nem o que pensa, nem o que sonha.

— Meu padrinho confunde este mundo com o inferno.

— Não, meu afilhado ; eu não confundo, digo somente o que elle é : és tu que pretendes arranjar o mundo a teu modo, e transformal-o em paraíso.

E o peior foi que dessa vez Geraldo-Risota não rio.



II.



A capital do Imperio do Brazil compõe-se, por assim dizer, de duas cidades distinctas, mas habitadas pela mesma população : a cidade da manhã e a cidade da tarde, a cidade do trabalho e a cidade do descanço. A primeira é aquella que especialmente se estende do campo da Acclamação para os diversos bairros commerciaes, que fórmão o que ainda se chama a cidade velha : a segunda é immensa, variada e pittoresca, e comprehende todos esses suburbios elegantes, amenos e saudáveis, que se chamão Cattete, Botafogo, Laranjeiras, Santa Theresa, Engenho-Velho, Rio-Comprido, S. Christovão, Andarahy, Tijuca, e outros ainda.

(continua...)

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