Por José de Alencar (1872)
Chegava o zelo do valentão a ponto de consumir-se quando ouvia mencionar o Bugre como o maior criminoso de toda a província de São Paulo. Muitas vezes em seu despeito encavacou seriamente; e andava pelas vendas e ranchos com a canseira de provar que ele, Gonçalo Suçuarana, merecia cem vezes mais a forca do que Jão; pois as perversidades cometidas por este eram travessuras de criança comparadas com os seus espalhafatos.
O subdelegado sabia disso e fazia como o juiz de paz, a quem a lei o substituíra. Deixava bem descansado de seu o Gonçalo Pinta, que assim podia a salvo gabar-se de ser um fama sem segundo na arte de matar gente.
Todavia enquanto vivesse Jão Fera, sabia o valentão que o nome deste havia sempre de ser o mais falado e temido de toda aquela redondeza, e por isso o tinha em grande ojeriza, apesar do serviço, que lhe prestara o Bugre, havia anos, livrando-o de um recruta que o levava preso.
Já ele teria dado cabo do rival, se pudesse, mas como não se atrevesse a atacá-lo de frente, espreitava ocasião de atirar-lhe o bote certeiro, e desde muito rondava disfarçadamente pela venda do Chico Tinguá, que suspeitavam de ser o inculca e espia do capanga foragido.
Tais eram as disposições do Gonçalo quando chamou o Filipe para dizer-lhe em particular:
- O patrício quer mesmo pilhar o Jão Fera? perguntou ele.
- Mas decerto, homem!
- E não sabe onde ele se encafua?
- Que esperança! Pois ainda estava aqui?
- E se eu lhe ensinasse a toca do bicho?
- Abra o preço, amigo.
- Duzentos bicos?
- Topado.
- Mas há de ser com um ajuste...
- Diga lá.
- Isto fica entre nós dois só. Negócio de muitos não serve.
- É assim mesmo.
- Pois então moita. Toca pra dentro, antes que os camaradas aventem. Olhe que o Tinguá é ressabiado, hein! Vá andando por aí afora. Passando este morro, atrás do outro, há um rancho. Eu já me boto pra lá. É só enquanto avio aqui outro negocinho.
Este curto diálogo travara-se no canto da casa, junto da cerca, onde havia um grosso toco de árvore, denegrido pelo fogo da coivara que ali passara outrora. Ainda quando menos os preocupasse o assunto, dificilmente distinguiria qualquer dos interlocutores, ali a dois passos dele, o vulto decrépito de um negro, arrimado a uma brecha da cepa carcomida com a qual se confundia, como o escorço de uma sapopema.
Seguiu Filipe o aviso de Gonçalo, e, pagando a despesa à Nhanica, mulher do Tinguá, que fazia no balcão as vezes do marido na ausência dele, pôs-se a caminho com os companheiros.
Partiam eles por um lado, que do oposto avistava-se um cavaleiro a galope. Era o Barroso que descambando o outeiro, na rápida guinilha do castanho, veio parar à porta da venda.
- Já está por cá? perguntou o Gonçalo que o esperava no terreiro.
- Ora! O milho que a mula comeu quando cheguei, já teve tempo de gralar! tornou o Gonçalo rindo-se da sua pilhéria.
- Pois bom proveito lhe faça a roça!
Retorquindo assim ao Pinta, dirigiu-se o Barroso à vendeira:
- Quedê este homem?
- Ele não está, nhor, não!
- Onde foi?
- Na vila, nhor, sim.
- Quando volta?
- Volta logo.
- O diabo o leve e mais quem o ature.
Saiu o Barroso da venda fumando e a respingar contra o Chico Tinguá que lhe havia pregado um famoso logro; qual fosse, não o dizia ele; mas despicava-se em ferrar o dente no pobre do vendeiro.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.