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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Todos nós sabemos que é; mas também que o outro, o embuçado, não lhe fica após disso, não há quem possa duvidar. O mesmo repente do assalto, como êle o praticou, surdindo num relance não se sabe donde, e arremetendo como um raio, não é proeza para qualquer. 

Esta observação partiu do alferes Daniel Ferro, que a-pesar-de amigo e parente, não deixava de ter sua ponta de rivalidade com o Marcos Fragoso. 

— Todos os dias a estão fazendo nossos vaqueiros, Daniel Ferro, sem que lhe mereçam nota, quanto mais os gabos que lhe dá agora. 

— E que pensa, Fragoso, que nossos vaqueiros não seriam homens para medir peças em jogos de destreza aos mais esforçados paladinos de outras eras? Por mim tenho que nunca Roldão, Lançarote, ou algum outro dos doze pares de França, estacou na ponta de sua lança um cavalheiro à disparada com tanta bizarria, como tenho visto topar um touro bravo na ponta da aguilhada.

— Lá isso é verdade, acudiu o João Correia. 

— Certo que é; mas não se medem proezas de cavalheiros com agilidades de peôes, tornou o Fragoso, e continuou voltando-se para o capitão-mór com ar prazenteiro. O atrevimento do vilão não causou nenhum mal em suma, pois restituiu a prenda à pessoa a quem a destinei desde o princípio da cavalhada; e não foi senão o mêdo do castigo que o moveu a amparar-se com a boa sombra da sra. D. Flor, que mais santa guarda não podia dar-lhe sua estrêla. 

Marcos Fragoso ao entrar na sala, relanceara disfarçadamente a vista para as portas interiores, com o sentido de surpreender por alguma fresta os olhos curiosos que porventura dalí estivessem espreitando. 

Havia no fundo da sala, entre as portas do serviço, duas janelas gradeadas como o locutório dos conventos, e de que ainda se encontraram amostras nas casas construídas pela gente abastada até princípios dêste século. 

Êsse crivo miudíssimo, tecido de rótulas delgadas, servia para esclarecer o corredor de passagem, vedando ao olhar curioso do hóspede a vista do interior, mas permitindo às pessoas da casa esmerilhar o que ia pela sala. 

Nem é de admirar se encontrasse na morada de nossos antepassados essa semelhança com os conventos, quando o teor da vida íntima tanto se parecia com a regra monástica, e as mulheres tinham no seio da família o mesmo recato das freiras. 

Pareceu a Marcos Fragoso que por detrás da primeira das rótulas se haviam condensado umas sombras vagas, as quais ao proferir êle as últimas palavras se agitaram para logo dissiparemse. 

Suspeitara o mancebo que uma daquelas sombras era de D. Flor e porisso lhe dirigira com um olhar o galanteio, que afugentou por momentos o vulto curioso. 

Não se enganara Marcos Fragoso. Eram efetivamente D. Flor e Alina que tinham vindo espreitar os hóspedes pela rótula, não sótrazidas de impulso próprio, como também a recado de D. Genoveva, que as mandara escutar quem eram os forasteiros e qual o motivo os trazia à Oiticica. 

Era costume de casa, e não só desta como de todas as grandes fazendas, não deixar partir os hóspedes sem os regalar; e isso usavam os ricaços, não tanto por obséquio e satisfação dos estranhos, como principalmente por ostentação do fausto com que se tratavam. 

Não perdiam ocasião de fazer alarde da suntuosa baixela de ouro e prata, de que especialmente se ufanavam, e na qual fundiam tal quantidade de metal precioso que chegaria em nossos tempos para levantar um palácio. 

Logo que o capitão-mór saíu a receber com mostras corteses os hóspedes, D. Genoveva ordenou os aprestos necessários para regalo, o qual em poucos instantes, e como por arte mágica, estava servido sôbre uma mesa coberta de tão ricas alfaias que lembravam os banquetes das Mil e uma noites. 

— Chame o sr. capitão-mór, disse D. Genoveva a um criado. 

Êste foi à porta da sala, abriu-a de par em par, e disse perfilando-se:

— Está na mesa. 

O capitão-mór fez com a cabeça um gesto afirmativo que significava estar ciente, e voltouse para os hóspedes: 

— O senhor capitão Marcos Fragoso e seus amigos sem dúvida dão-nos o gôsto de jantar na Oiticica; mas enquanto não chega a hora, vamos tomar algum refrêsco. 

— Se nos dá licença, ficámos de jantar no Bargado onde nos esperam, tornou o capitão Fragoso, que não queria abusar da hospitalidade, talvez para melhor usar dela mais tarde. 

— Como queiram; não deixarão, porém, nossa casa sem bebermos um copo em honra da visita com que nos obsequiaram. 

— Certamente que não faltaremos a tão grato dever. 

À mesa não apareceram nem D. Genoveva, nem as duas moças. O capitão-mór unicamente, acompanahdo de seu ajudante Agrela e de seu capelão, padre Teles, fez as honras do banquete. 

(continua...)

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