Por José de Alencar (1873)
A poucos passos de distância os estudantes, expulsando os beleguins, tomaram conta dos presos e fizeram com eles coisas do arco-da-velha. Basta que, no dia seguinte, o caboclo amanheceu em cuecas, atado a um mastro, à guisa de judas em sábado d’aleluia, e com o couro pintado de azul. Quanto ao moleque, nu em pêlo, com uma crosta de vermelhão que o envolvia do cabelo à sola dos pés, e com o apêndice de um cabo de navio servindo-lhe de cauda saltava no meio da rapaziada em figura de diabrete, e representava menos mal o seu papel de palhaço do inferno.
Era já dia claro; e ainda o motim percorria as ruas da cidade, esperando a hora da sessão, que a Câmara convocara para o quartel do governador.
XXVII
ONDE SE VÊ A IMPORTÂNCIA JURÍDICA DO MEDO NA
DECISÃO DOS CASOS MAIS INTRINCADOS DA TEOLOGIA
A casa de residência do governador, ou seu quartel, como diziam então pelo respeito ao elevado posto de capitão-general, ainda estava por aquela época na Rua da Cruz, que depois veio a ser Rua Direita, e ultimamente com o sestro em que deu a nossa vereança passou a Rua de 1º de Março.
Essa mania de mudar os nomes às ruas e pô-los à moda, é nada menos que uma barbaria e degradação igual à que se perpetrava com os antigos monumentos e quadros empastando-os de arrebiques à moderna. Em um caso, profanação da arte; em outro, profanação da história: dois relicários do coração humano.
Nas mudanças sucessivas por que passa o nome de uma parte da grande cidade, escreve o povo fluminense um capítulo da sua história íntima. Assim, folheai essa página de pedra e cal, que se chamava até o ano atrasado Largo do Paço.
Sua primeira designação, nos tempos primitivos, foi campo do Ferreiro da Polé. Subiu depois a Rossio quando as casas o cercaram. Carmo, atesta a edificação do convento dessa Ordem; Terreiro do Governador, a residência da primeira autoridade da capitania; Praça do Palácio, a elevação de cidade a capital de vice-reinado; e finalmente Paço, a corte real que pouco tardou em trocar-se por Imperial.
Entretanto que significa Pedro II escrito naquelas esquinas? Simples lisonja de cortesão. O augusto filho do fundador do império não tem particularidade alguma com essa praça, onde estão os paços que, se hoje o hospedam, foram de seu pai e de seu avô; e triste daquele a quem cinge uma coroa, se carecesse de uma esquina de rua para ir à posteridade!
O que dizemos do primeiro cidadão, aplica-se aos patriarcas e aos outros medalhões da política. Erijam-lhes estátuas de ouro, se quiserem; levantem-lhes monumentos de bronze; dediquem-lhes templos e altares; mas não se meta a câmara a tralhona, usurpando essa prerrogativa do povo soberano de criar os nomes e formar as tradições de sua cidade natal.
Se não mente a crônica, era no lugar onde está hoje a Caixa da Amortização e Correio, que se levantava a residência do governador, a qual foi destruída na invasão dos franceses em 1710.
Para aí se dirigiram desde as 7 horas o juiz e oficiais da Câmara, bem como as pessoas gradas e sabedoras pelo senado convocadas; iam todos solícitos de acudir com pronto remédio ao sucesso extraordinário que desde a véspera trazia em alvoroto a cidade.
Esperava-os o Governador Tomé Correia de Alvarenga, não menos sôfrego de pôr termo à agitação do povo. Durante a noite, ciente do que ia pela cidade, mandou ficar sua guarda assim como a gente do terço a postos e de prontidão para o que pudesse acontecer; mas fez-se desentendido, e absteve-se da menor intervenção.
Empenhado em arranjar uma representação da Câmara e povos de São Sebastião pedindo a El-Rei para provê-lo, a ele Tomé Correia, no efetivo governo das capitanias no sul, que estava servindo interinamente, tratava de agradar a todos e pois não lhe convinha tirar razões e ir às mãos com o motim que era lá com a clerezia.
Ao entrar a sessão, ouviu-se na rua grande alarido. Era a troça dos estudantes que voltava, trazendo no centro o tabelião e à frente o moleque lambreado de vermelho, e montado em um cabrito. Atrás vinha uma súcia de meninos que seguravam a cauda do diabrete, como se fosse a amarra de uma âncora.
— Senhor juiz e oficiais em Câmara, gritou o Ivo, aqui trazemos a Vossas Mercês este exímio teólogo para consultar sobre o caso intrincado. É grande sabedor de excomunhões, bruxarias e demonices.
Gargalhada estrondosa, seguida de formidável apupada.
— Salta, capeta!
— Silêncio, que o cabrito vai espirrar!
— Não é espirro. É um latinaço que lhe esguichou pelas ventas.
— Então o cabrum é doutor?
— De borla e capelo.
—Quiá!... Quiá!... Quiá!...
De véspera esperava-se que a sessão convocada pela câmara fosse das mais importantes de que havia notícia, já pela gravidade das circunstâncias e já pelos grandes luzeiros da ciência que tinham de dar seu voto.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.