Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Veio então pelo lago descendo
Um batel, que em riquezas primava, Tudo quanto ia nele se vendo
De tão rico e brilhante ofuscava; Té que em terra seu dono saltou;
E a donzela, que o viu... trepidou.
Era rico; mas torvo no olhar,
E feroz, no sorrir causa susto; Veio vindo... e enfim té parar
Mesmo junto do flórido arbusto;
E a donzela pra o seu anjo olhando, Soluçou; porque o viu soluçando.
O seu braço monstruoso estendeu Pra roseira o opulento senhor;
Dos botões o da esquerda colheu...
Soa um grito de susto, e de dor;
E o tirano sem nada escutar O colhido botão vai beijar.
Porém pára espantado... sentido...
Frio... pálido espectro ficando, Que o botão encantado, colhido
Vai-se todo mirrando... mirrando... Esvaiu-se... mais forma não tem, E o batel e seu dono também.
Veio então pelo lago chegando Belo carro de prata formado,
E rinchando, bufando, nadando
Os ginetes, que o trazem puxado, Té que em terra seu dono saltou,
E a donzela, que o viu... trepidou.
Era rico; mas velho e cansado
Todo em rugas o rosto mostrou;
Veio vindo a um bastão arrimado, Té que junto do arbusto parou. E a donzela pra o seu anjo olhando, Soluçou, porque o viu soluçando.
O seu trêmulo braço estendeu
Pra roseira o tão velho senhor, O botão da direita colheu...
Soa um grito de susto e de dor, E o tirano sem nada escutar O colhido botão vai beijar.
Porém pára espantado... sentido...
Frio... pálido espectro ficando;
Que o botão encantado, colhido
Vai-se em linda avezinha tornando... Bate as asas... pra o céu já fugiu;
Velho, e carro... quem foi que os sumiu?...
Veio enfim pelo lago descendo, Não um carro, nem rico batel.
Nem riquezas, nem luxo trazendo Vasos d’ouro repletos de fel;
Mas somente uma cesta de flores,
Que teceram benignos amores.
Já o ar outra vez rescendia, E outra vez doce canto se ouviu;
Entre eflúvios e a terna harmonia. A donzela porém não dormiu. Belo jovem em terra saltou;
Por que a virgem não mais trepidou?...
Era lindo o donzel... tão formoso...
Seu sorrir tem feitiços de amor; Veio vindo... e parou cobiçoso Como em êxtase olhando pra flor: E a donzela pra o seu anjo olhando, Suspirou, porque o viu suspirando.
O seu braço gracioso estendeu Pra roseira o dileto de amor, O terceiro botão já colheu...
Não se ouviu mais o grito de dor. E o mancebo com fogo, e paixão Vai beijar o colhido botão.
Porém pára... enlevado... perdido...
O presente de amor contemplando, Que com tanta ventura colhido
Pouco a pouco se vai desfechando, E oferece, em lugar de botão, Da donzela o feliz coração...
Bate as asas o anjo contente,
E primeiro baixando o adejo, Da donzela tão pura, inocente,
Vai nos lábios deixar santo beijo. E saudoso alça então vôo seu Para sua morada... no céu.
E o mancebo feliz... belo... ardente Corre à virgem com vivo fervor,
E sem ver, que ela é toda inocente,
Quer também dar-lhe um beijo de amor, Mas a virgem tremeu... não ousou...
E um grito soltando... acordou. -------------------------------------------------- O que é sonho?... é verdade ou quimera!...
O que é sonho?... é a alma que vela, Que vagando por mais alta esfera Do porvir os arcanos revela?...
O que é sonho?... futuro sem véu?...
O que é sonho?... – mistério do céu.
Mas que é feito da virgem, do pobre?...
Já o dia voltou – Vou dizer:
Seu amor denso véu inda cobre;
Que ele ama não posso esconder;
Porém teme... receia... não diz;
Porque é pobre, por isso infeliz.
E a donzela formosa, inocente,
Inda livre, inda isenta de amor,
A ninguém ganhar dela consente
De seu sonho um botão,., uma flor; Pois no rubro virgíneo botão, Julga ver seu feliz coração.
E o mancebo, que tinha tentado A paixão, que nascia, abafar, Hoje a ela de todo curvado
Está com os olhos no céu a clamar:
“Quem não fora nascido; – ou então
“Quem colhera o terceiro botão!...”
Longo tinha sido o cantar do velho, e durante todo ele mil e diversas sensações havia experimentado a “Bela Órfã”.
Um segredo de seus mais belos dias, o primeiro romance de sua alma de moça estava revelado.
Quem o revelara?
E sobretudo havia ali naqueles versos a expressão e a confissão de um amor profundo mas temeroso... era o poeta que amava a bela.
O primeiro pensamento de Celina foi perguntar ao velho Rodrigues o nome do autor daquele romance; corando porém diante de sua consciência de virgem hesitou...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.