Por Camilo Castelo Branco (1869)
Hermenegildo sentia-se bem disposto para jantar; mas a galinha enjoava-o já. Pediu à Rosa Catraia que lhe levasse do seu jantar. Comeu uma farta gamelada de carne seca com feijão preto, bebeu à proporção vinho de Bordéus, adoçou os bócios com uma tigela de maracujá, e estendeu-se no flácido colchão para sestear.
Pouco depois rugia, apanhando os refegos do estômago que latejava, e contorcendo-se sobre o fígado. Era uma cólica.
Saíram os criados a procurar o doutor Costa. Encontraram-no, caminho já da casa de Hermenegildo Fialho.
― Estou a morrer, se me não acode! – exclamou o doente escabujando nos braços de Rosa Catraia.
O doutor receitou, ouvida a exposição da enfermeira. Um vomitório enérgico arrancou das cavernas daquela sentina a morte envolta em ondas de feijão preto.
Estava desafrontado, mas ardentemente febril.
O doutor examinou atento se as faculdades intelectivas do doente estavam de leve alteradas pelo acesso febril.
Aprazivelmente reconheceu a sanidade do espírito do homem, que lhe dizia com voz roufenha:
― Sempre vossa senhoria é um grande cirurgião! Palavra de honra, que eu estava a espichar desta!
Francisco Costa disse à concubina que saísse do quarto, e sentou-se à cabeceira do doente.
― Parece-lhe que estou pior, doutor? – disse assustado o brasileiro, traduzindo funestamente o aspecto severo e pensativo de Francisco.
― Não senhor. Está melhor. Poderá o Sr. Hermenegildo ler um papel que eu aqui tenho? ― Ler um papel?! Que papel é esse? Posso ler perfeitamente.
― Leia.
Fialho recebeu uma meia folha de papel selado, que continha o seguinte:
Declaro eu abaixo assinado Hermenegildo Fialho Barrosas, negociante que fui no Porto, e atualmente morador no Rio de Janeiro, que recebi do cirurgião Francisco José da Costa, residente na mesma cidade, a quantia de um conto, seiscentos e cinqüenta mil réis, fortes, que minha mulher D. Ângela de Noronha tinha emprestado a Joana Costa, irmã do dito cirurgião, e costureira residente no Porto, a fim de com esta quantia, recebida em diversas parcelas, o referido cirurgião poder continuar a completar a sua habilitação para curar. E, como isto é verdade, pedi ao dito Francisco José da Costa que este fizesse para eu assinar a presença de três testemunhas que são...
Aqui terminava a leitura.
Hermenegildo sentara-se espantado no leito, ao passo que Francisco tirava duma carteira um maço de notas, e lhe dizia serenamente:
― Torne a ler, se quiser, Sr. Fialho; mas não me faça perguntas; porque tudo que tenho a responder-lhe está aí. Eu sou o irmão da viúva honrada que ia a sua casa. Fui um moço pobre que a Sr.ª D. Ângela conheceu bom e digno de ser estimado na mocidade de ambos. Recebi dessa virtuosa senhora a esmola da minha formatura, ignorando a quem a devia. Agora posso pagá-la; e a vossa senhoria, que diz ter sido roubado por sua esposa, é a quem de direito me cumpre pagar. Falta a indicação das testemunhas. Permita-me que eu chame três dos seus vizinhos, aos quais o Sr. Fialho lerá esta quitação, e perante os quais me fará a mercê de assinar, contada a quantia que deixo para ser examinada.
― Mas explique-me isto! – bradava o enfermo.
― Está explicado, senhor!
― Então minha mulher estava inocente? Porque o não disse ela? Porque não contou ela a história que o doutor me contou agora?
― Não sei. Confiaria pouco na sua generosidade, senhor. Seria surpreendida de modo que não pudesse justificar-se. Enfim, não sei, nem posso demorar-me. Vou chamar as testemunhas.
― Mas eu não quero este dinheiro! – clamou Hermenegildo.
― Rasgue as notas depois de ter assinado o recibo.
E desceu precipitadamente as escadas, subindo-as logo com as três testemunhas.
Fialho não pode ler a quitação, de inquieta e aflita que se lhe espojava a alma, como enojada do corpo. Costa pediu a uma das testemunhas que lesse e a outra que contasse as notas. Depois, chegou a pena ao doente, que assinou com a mão convulsa.
As testemunhas saíram.
― Se vê que eu morro – tartamudeou Hermenegildo – diga-mo, que quero fazer testamento, e deixar alguma coisa a minha mulher, se ela ainda for viva.
― Não sei se morre, Sr. Fialho. Ângela de Noronha, se vive, não aceitará a sua herança...
― Por quê? Então não há de aceitar?
― Ângela de Noronha, se viver, terá metade do meu pão. O que D. Ângela aceitaria de seu marido está aqui... É este papel que a salvará da infâmia que o senhor lhe associou à pobreza, para que o mundo nem misericórdia houvesse dela. Se a infeliz tiver caído à última desonra, Sr. Fialho, em tal caso eu irei ainda procurá-la de abismo em abismo, e dizer-lhe que fiz o que pude em desafronta do seu nome. Adeus.
Francisco Costa saiu enxugando as lágrimas.
A cara de Hermenegildo apenas ressumava o suor mal enxuto das agonias da cólica, sobre o amarelidão nauseabunda da icterícia.
XXI MORRE HERMENEGILDO
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.