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#Romances#Literatura Brasileira

Os Bruzundangas

Por Lima Barreto (1922)

Esta preocupação, nele, chegava às raias da obsessão, pois o seu espírito de herói da Bruzundanga não se orientava, no que toca à sua atividade governamental, pelos aspectos sociais e tradicionais do país, não se preocupava em descobrir-lhe o seu destino na civilização por este ou aquele tênue indício a fim de com mais proveito, auxiliar a marcha de sua pátria pelos anos em fora. Ao contrário: secretamente revoltava-se contra o determinismo de sua história, condicionado pela sua situação geográfica, pelo seu povoamento, pelos seus climas, pelos seus rios, pelos seus acidentes físicos, pela constituição do seu solo, etc.; e desejava muito infantilmente fabricar, no palácio do seu ministério, uma Bruzundanga peralvilha e casquilha, gênero boulevard, sem os javaneses, que incomodavam tanto os estrangeiros e provocavam os remoques dos caricaturistas da República das Planícies, limítrofe, e tida como rival da Bruzundanga.

Enfim, ele não era ministro, para felicitar os seus concidadãos, para corrigir-lhe os defeitos em medidas adequadas para acentuar as suas qualidades, para aperfeiçoá-las, para encaminhar melhor a evolução do país, acelerando-a como pudesse; o visconde era ministro para evitar aos estranhos, aos touristes, contratempos e maus encontros com javaneses. Ele chegou até a preparar uma guerra criminosa para ver se dava cabo destes últimos...

Mas como ia dizendo, Pancome, no seu ministério, fazia tudo o que entendia; mas, mesmo assim, não se atrevia a romper abertamente com aquela história de concursos, com os quais desde muito andava escarmentado, devido a razão que lhes hei de contar mais tarde.

Era, afinal, uma pequena hesitação no espírito de um homem que tinha tido até ali tão audazes atrevimentos para desrespeitar todas as leis, todos os regulamentos e todas as praxes administrativas.

É bastante dizer que, não contente em residir no próprio edifício do Ministério sem autorização legal, Pancome não trepidou em estabelecer na chácara do mesmo um redondel de touradas, um campo de football, um café-concerto, para obsequiar respectivamente os diplomatas espanhóis, ingleses e suecos.

Como já tive ocasião de dizer, tal ministro só trabalhava para impressionar os estrangeiros, e, apesar de não ter feito obra alguma de alcance social para a Bruzundanga, o povo o adorava porque o julgava admirado pelos países estranhos e seus sábios.

Se alguém se lembrava de censurar esse seu desavergonhado modo e governar, logo os jornalistas habituados a canonizações simoníacas e parlamentares que gostavam do pot-de-vin, gritavam: que tipo mesquinho! Criticar esse patrimônio nacional que é o Visconde de Pancome, por causa de ninharias! Ingrato!

Diante dessa desculpa de patrimônio nacional, toda a gente se calava e o país ia engolindo as afrontas que o seu ministro fazia às suas leis e aos seus regulamentos.

De onde — hão de perguntar — lhe tinha vindo tal prestígio? fácil de explicar. Ele veio, no fim, da tal história das condecorações que já lhes contei — fato que encheu de júbilo todo o povo daquela pátria, porque a República das Planícies que Pancome trabalhava para sempre andar às turras com a Bruzundanga, não as tinha obtido, apesar de disputá-las. Antes disso, porém, ele já tinha um ascendente bem forte, devido a uma grande proeza. Pancome tinha subido ao cume do Tiaya, o modesto Himalaia da corografia da República da Bruzundanga, dois mil e novecentos a três mil metros de altitude. Vou-lhes contar como a cousa foi.

Um dia, estando Pancome nas proximidades dessa montanha, anunciou a todos os quadrantes que ia escalá-la.

Os bruzundanguenses do lugar sorriram diante do projeto daquele homem gordo e pesado. Aquilo (o monte) diziam, era muito alto e ele não teria fôlego para chegar ao cume; havia fatalmente de rolar pelas encostas abaixo, antes de atingir o meio da jornada.

O visconde, porém, não se temorizou, subiu e dizem que foi ao pico da montanha.

A vista de semelhante proeza, os naturais do país, logo que a nova se espalhou, exultaram, pois andavam de há muito necessitados de um herói. Não contentes da notícia da façanha ter corrido toda a nação, telegrafaram para as cinco partes do mundo exaltando a ousadia ainda mais.

E verdade que, antes de Pancome, muitos outros, entre os quais o Kaetano Phulgêncio, um roceiro do local, tinham subido o Tiaya várias vezes, em aventuras de caça, e até esse Phulgêncio serviu-lhe de guia; mas isto não foi lembrado e Pancome passou por ser o primeiro a fazê-lo.

De tal proeza e das consequências que dela advieram, nasceu a fama do visconde, a sua consideração de herói nacional, tanto mais que os clubes alpinos da Europa tomaram nota do ilustre feito e, graças à diplomacia da Bruzundanga, o retrato e a biografia do portentoso varão foram estampados nas revistas especiais de sport.

(continua...)

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