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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Não penso assim — considerou Macieira; — não se deve desprezar os ataques dessa maneira. Fazem eco e somos prejudicados.

Neves Cogominho também era do mesmo parecer, mas Xandu observou peremptoriamente:

— Prefiro a ação às palavras.

Pieterzoon contradisse risonho:

— Mas caro Xandu, a nossa ação são as palavras.

— Por isso estou deslocado.

— Mas não está Numa, que falará. Não acha útil, Dr. Cogominho? — Com toda a certeza, apesar dos horizontes se esclarecerem.

A conversa ainda demorou algum tempo até que se ouviram os primeiros compassos da banda militar que puxava a manifestação. Senhoras e cavalheiros vieram colocar-se na sala principal; alguns nos vãos das janelas, outros nas portas de comunicação; e Neves ficou em um dos ângulos da sala, ao centro de um grupo de senhoras e cavalheiros. O seu corpo alentado e a sua aura dominavam tudo; e ele punha as mãos sobre o ventre, esperando pacientemente. Ao lado direito tinha a filha e o genro; à esquerda Mme. Forfaible, cor de cera, alta, modelada em “grande tênue”, com o olhar de batalha que o marido não tinha. Mme. Celeste Galvão ficara atrás com medo dos manifestantes e pudera dizer à velha D. Romana, quando foi tomar lugar à esquerda do sobrinho:

— Amanhã é que são elas! Copos furtados, “bibelots”, jardins estragados... Qual! Esta política!

Os admiradores de Cogominho penetraram no jardim:

— Viva! Viva o senador Cogominho! Viva!

E a banda a todo pulmão, repenicava um dobrado entusiástico e cadenciado; as lanternas venezianas, nas pontas das canas, dançavam; e tudo parecia uma longa cobra fosforescente e musical que rastejava para o palacete. Viva o senador Cogominho! Viva! Viva o general Bentes!... A multidão vinha premida na estreita alameda principal do jardim; as lanternas venezianas dançavam na ponta das canas... Viva o senador Cogominho! Viva! Viva o senador Bastos! Viva! Viva!

Queimavam fogos de bengala... Viva! Viva!

A cabeça sonora atingia a escada de pedra, afastou-se a música para o lado; cindiu-se do corpo, que coleando subiu até o salão de recepção.

Inácio Costa, suando, lenço ao pescoço, fungando o seu teimoso defluxo, vinha à frente, berrando, agitando o chapéu, bem junto de Canto Ribeiro, celebridade dos “meetings” e manifestações, tipo da cidade, renitente orador, cuja oratória consistia em berrar as mais gastas chapas do Orador Popular. Era também empreiteiro de manifestações, e, como todo o empreiteiro que se preza, tinha o seu pessoal adestrado. Além de um núcleo forte de bravos, possuía a seu serviço moços limpos; estudantes, pequenos empregados, aspirantes a empregos — gente iludida com promessas de lugares e promoções.

Havia em Canto Ribeiro um pouco de especulação e muita sinceridade. Supondo-se orador, julgava-se com um alto destino político e não pelejava ser orador de praças públicas, para abrir caminho até aos altos cargos políticos.

A sua oratória era feita de berros, de mugidos e rugidos; e, além de qualquer apuro literário, faltava-lhe também uma voz musical, numerosa, com inflexões.

Barba-de-Bode tratou de colocar os admiradores do melhor modo. A sala era vasta, mas não pode conter todos os manifestantes. Uma grande parte ficou pela escada e pelo jardim.

Havia ali de toda a gente; pobres homens desempregados, que vinham até ali ganhar uma espórtula; vagabundos notáveis, entusiastas ingênuos, curiosos e agradecidos; todas as cores. Os vestuários eram os mais engraçados e inesperados. Havia um preto com uma sobrecasaca cor de vinho, calçado com uma bota preta e outra amarela; um rapaz louro, com umas calças bicolor, uma perna preta e outra cinzenta; fraques antediluvianos, calcas de cáqui, blusas, dólmãs, coletes sarapintados.

Vendo essa gente miserável, degradada física e moralmente, tão contentes com a política, parecia que ela não tinha por fim fazer os povos felizes...

Os admiradores comprimiram-se, os móveis foram arredatos e Canto Ribeiro começou a falar. Durante vinte minutos, expectorou as mais sórdidas banalidades sobre a república e a pátria.



(continua...)

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