Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Clara dos Anjos

Por Lima Barreto (1922)

Em vindo esta, aplicou remédios caseiros, mandou buscar malva, pela criada que tinha em sua casa; fez Clara bochechar e foi-se para a casa tratar dos seus bordados e costuras.

Engrácia, porém, não se acomodava, andava de um lado para outro, impaciente que o marido chegasse. Todas as moléstias existentes, que a natureza cria, e os médicos, por desfastio, inventam, ela supunha poder ter sua filha.

Não havia nenhuma lucidez nos seus raciocínios, quando um acontecimento de aparência grave lhe tocava, e pior ficava, quando se tratava da filha.

O seu amor à Clara era um sentimento doentio, absorvente e mudo. Queria a filha sempre junto a si, mas quase não conversava com ela, não a elucidava sobre as coisas da vida, sobre os seus deveres de mulher e de moça. A não ser no caso de Cassi, que o seu instinto de mãe falara mais alto do que a sua inércia natural, nunca punha em prática uma medida eficaz que traduzisse amparo e direção de mãe na conduta da filha. Pensava, mas não chegava ao ato.

O dia inteiro, quase, passavam as duas mulheres metidas cada uma consigo mesma.

A mãe lavava a roupa no tanque, ao lado da casa; e a filha se encarregava dos arranjos domésticos. A cozinha era feita por ambas ou só por Clara, quando não tinha músicas do pai a copiar ou sua mãe tinha muita roupa na lavagem.

Joaquim, o Quincas, como o chamava a mulher, saía, nas primeiras horas da manhã, passava pela venda, fazia as encomendas, tomava um "calisto" e conversava um pouco com o "Seu" Nascimento.

— Não acredito que "ele" venha, nem também que o outro se repimpe no Catete.

— Seria bom para o senhor... — dizia Nascimento.

— O quê? Nem o conheço... Qual! Nada tenho com um nem com outro...

— Mas é seu patrício...

— Como o senhor é, como o outro é também. Somos todos brasileiros... Eu, "Seu" Nascimento, só cuido da mulher e da filha e, um pouco, da música.

— Por falar em música: que tal aquele Cassi?

— Quer que lhe diga uma coisa? Como músico, não vale nada. Dá cada cincada...

— Mas tem fama...

— A fama dele vem do dengoso, do meloso que ele põe no cantar, chegando a ser até uma indecência. Ele canta que parece estar num café-concerto, no meio de mulheres de vida airada...

— Por aí, apreciam-no muito...

— São essas meninas bobas, que não têm quem lhes abra os olhos... Olhe, "Seu" Nascimento, na minha casa ele não me põe mais os pés.

— Marramaque, seu compadre, já me tinha dito isto e...

— O compadre exagera muito. O compadre tem o seu ponto de honra de poeta... O senhor sabe; ele já figurou, escreveu em jornais e revistas, teve roda e convivência de certa ordem, não pode admitir que um quase analfabeto, como Cassi, tenha fama de artista... A culpa não é deste; é do nosso meio, que não tem instrução nem preparo.

— "Seu" Joaquim, o senhor já viu o caderno que mandaram a seu compadre sobre o tal Cassi?

— Já.

— Que pensa daquilo tudo?

— Se é verdade, ele merece a forca.

— Pois dizem que é. O senhor não sabe quem é a tia Vicência, que mora por aqui, na rua da Redenção?

— Não.

— Conheço-a eu. Ela é pessoa da casa de Cassi e diz que tudo aquilo é verdade. Conta até mais detalhes.

— E quem é que espalha o tal caderno?

— É um oficial do Exército, homem preparado, parece que engenheiro, cuja mulher atual é aquela moça que Cassi desonrou, e a mãe matou-se por isso, há cinco anos.

— Quem lhe disse isso?

— Vicência. Ela conhece não só a família do violeiro, como muitas das vítimas. Diz que o marido dessa moça só não lhe dá cabo do canastro, para não fazer escândalo; mas, na primeira em que se meter, toma a peito a causa da vítima, seja quem for.

Joaquim dos Anjos ouviu isso, calou-se um pouco e, sem nada responder, recomendou:

— Não se esqueça de mandar, principalmente a lenha, que é precisa para o almoço. Estou na hora... Até logo!

Saiu, pensando nesse tal Cassi, que, por mais que quisesse esquecê-lo, sempre estava presente à sua memória, sempre estavam a relembrá-lo, como se fosse uma grande coisa, um homem notável e de posição. Que é que queriam dizer com isso? Preveni-lo? O carteiro sorriu intimamente: "Ele não ousará"! E pensou na sua garrucha de dois canos, com as quais se viaja em Minas, presente ainda do inglês, seu primeiro patrão.

Homem forte, leal, direito, Joaquim tanto tinha nos outros como em si uma confiança ilimitada. Não desconfiava, nem admitia que se desconfiasse; mas esse tal Cassi...

Estendia essa sua confiança à sua mulher, no que tinha razão; mas não à filha, como fazia, porque, no tocante a esta, precisava contar com a crise da idade, a estreiteza de sua educação doméstica e a atmosfera de corrupção com que o meio a envolvia, admitindo tacitamente que ela estava fadada ao destino das "outras". Joaquim dos Anjos não tinha capacidade intelectual para tanto...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3839404142...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →