Por Aluísio Azevedo (1895)
E com eleito: dantes, Teobaldo mal apresentava algum trabalho nas redações, só ouvia em torno de si elogios e palavras de entusiasmo. É que sabiam perfeitamente que ele não precisava ganhar a vida; agora era um necessitado como qualquer e então viravam-lhe as costas, porque a necessidade é sempre ridícula e importuna
O mesmo justamente lhe sucedera com os teatros. Dantes, quando Teobaldo freqüentava a caixa dos teatros nas horas de ensaio, pagando champanha aos artistas e levando-os depois do espetáculo a cear nos melhores hotéis; dantes, quando ele os presenteava nos benefícios e lhes emprestava dinheiro, muita vez perguntaram-lhe os empresários por que razão, dispondo de tanto talento e de tanto espírito, não escrevia ele alguma coisa para ser levada à cena. Havia por força de fazer sucesso!.. Teobaldo que experimentasse! E agora, quando a necessidade lhe invadira a casa, rapaz, lembrando-se de tão repetidas solicitações feitas ao seu talento, tornou de um romance inglês e extraiu daí um drama que, se não era um primor de arte, estava ao menos no gosto do público e podia dar lucro ,aqueles mesmos empresários o receberam com frieza, dizendo-lhe secamente que deixasse ficar o trabalho e aparecesse depois. E, mais tarde, talvez sem terem lido a obra, acrescentaram-lhe com meias palavras e dando-lhe o pretensioso tratamento de "filho" que ele fosse cuidar de outro ofício e perdesse as esperanças de arranjar alguma coisa por aquele modo.
Com o seu gênio altivo, com a educação que tivera, Teobaldo não podia insistir em tais pretensões. Era bastante perceber um gesto de má vontade ou de pouco caso para lhe subir o sangue às faces, e muito fazia já conseguindo reprimir a cólera que se assanhava dentro dele, sôfrega por escapar em frases violentas.
Depois dessas lutas e dessas tentativas estéreis, voltava para casa desanimado e furioso contra tudo e contra todos, encerrando-se no quarto e fechando-se por dentro para chorar à vontade.
Vinha-lhe então quase sempre a idéia do suicídio, mas não vinha com ela a resolução, e o desgraçado continuava a viver.
Todavia o tempo ia-se passando e o círculo das necessidades apertava-se cada vez mais.
Coruja era agora o único sustentáculo da casa, era quem pagava o aluguel, a pensão de comida para Teobaldo que ele continuava a almoçar e jantar no colégio, era quem lhe pagava a lavadeira, e quem lhe fornecia dinheiro.
Mas tudo isso era feito com tamanha delicadeza, com tanto amor, que Teobaldo, quando lhe aparecia qualquer revolta do caráter, ficava mais envergonhado de seu orgulho do que com receber aqueles obséquios.
E nunca o André andou tão satisfeito, tão alegre de sua vida; dir-se-ia que ele, praticando aqueles sacrifícios, alcançava enfim a realização dos seus melhores sonhos
Era comum vê-lo chegar a casa com uma caixa de charutos debaixo do braço e depo-la ao lado do amigo, dizendo quase envergonhado:
- Olha! como estavam a acabar estes charutos e sei que são dos que mais gostas, trouxeos, porque depois quando fosses procurá-los, já não os encontrarias a venda.
E tinha sempre uma desculpa a apresentar, uma razão para disfarçar os seus benefícios. Teobaldo quis privar-se do vinho à mesa; Coruja, que aliás não bebia nunca, opôs-se-lhe fortemente.
- Não! disse ele - Estás muito acostumado com o vinho à comida e, por uma miserável economia de alguns tostões, não vale a pena fazeres um sacrifício!.
A maior dificuldade era, porém, quando precisava passar-lhe dinheiro, sem lhe ferir, nem de leve, o amor próprio. A princípio tinha para isso uma boa desculpa - os quinhentos mil réis; mas esta quantia não podia durar eternamente e, já por último, dizia o Coruja: - Sabes? quando eu tinha em meu poder aquele teu dinheiro, servi-me de tanto e esquecime de repor o que tirei; por conseguinte, se precisares agora receber algum por conta, eu posso pagar.
Um dia ele apareceu em casa com um grande rolo de papéis, e disse ao companheiro que o diretor do colégio o havia encarregado de organizar uma seleta muito especial, destinada ao estudo da sintaxe portuguesa.
- A coisa não é má... acrescentou o Coruja, abaixando a voz, como quem conspira. - Eles pagam 300$ pelo trabalho...
- Bom, fez Teobaldo.
- Eu estive a recusar, porque me falta talento; lembrei-me, porém, de que tu, se quisesses.. . podias encarregar-te disso.. . A coisa é maçante, é, mas enfim.. sempre é um achego... Além de que, eu te posso ajudar, sim, quer dizer que..
- Ah! Para ajudar não te falta talento! Hipócrita! respondeu Teobaldo abraçando-o.
- E se precisares durante a obra de algum dinheiro adiantado... É do contrato! Sabes!
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(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.