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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Mal começa a cheirar­me a brincadeira! Bem sabes que te não abandonarei, mas não deves abusar da minha condescendência.. Ouvi por acaso dizer há pouco que os pais dos noivos já se tinham também recolhido e que poucos convidados haveria de pé... São duas horas da madrugada!

Só em verdade um reduzido grupo de convivas recalcitrantes insistia em prolongar a festa, bebendo, já sem olhar o que, entre arrastadas cantigas à meia voz e descaídos abraços de borracheira; os outros, ou se tinham retirado para casa, ou recolhido aos dormitórios que o comendador mandara improvisar para os seus hóspedes.

Os criados, moídos e taciturnos, encostavam­se pelos umbrais das portas, a fitar os retardatários com um olhar humilde e suplicante. Um deles foi ter, bocejando, com Gaspar e Gabriel, e perguntou­lhes, quase de olhos fechados, se pernoitavam na chácara.

— Sim, respondeu o mais moço, sem consultar o outro.

— Mas precisamos de um quarto, donde se possa sair pela madrugada... Observou Gaspar; nossa carruagem chega às quatro horas...

O criado, a coçar­se todo, conduziu­os a uma câmara ao rés do chão, onde já havia dois sujeitos a dormir profundamente.

— Mas afinal, a que pretendes tu chegar com tudo isto?! perguntou Gaspar em voz baixa ao companheiro, quando se acharam a sós.

— A nada mais do que descansar um pouco, e partir em seguida... Contudo, se quiseres ir, ainda está em tempo... Eu, como já disse, não vou por ora.

— Ao contrário, preciso de repouso, e não tenho condução... volveu Gaspar, afetando um bocejo.

E acrescentou, estirando­se num sofá, depois de desfazer­se da casaca e das botinas:

— Contanto que antes de amanhecer estejamos a caminho... Não me convém de modo algum encontrar com o comendador.

— Podes ficar descansado... prometeu o outro, recolhendo por sua vez a uma poltrona de couro.

E, apagando a lâmpada que levara para junto desta, fingiu que adormecia.

Ao fim de algum tempo, a casa mergulhava de todo em silêncio e trevas. Gabriel ergueu­se cautelosamente; foi à porta, abriu­a com sumo cuidado, e saiu para o jardim, em mangas de camisa e sem sapatos. Levava o punhal consigo.

A noite era cada vez mais negra.

Gaspar, porém, que continuava alerta, mal percebeu a escápula do companheiro, enfiou num relance as botinas e a casaca, e atirou­se sorrateiramente no encalço dele.

II

O MÉDICO MISTERIOSO

Gabriel, sem dar pelo amigo, que o seguia à distância, atravessou o jardim e ganhou a chácara. Tinham­lhe falado no pavilhão ao fundo... do lado do mar...

— É ali!... balbuciou ele, cheio de febre. Deve ser aquele chalézinho sonolento, que se esconde na folhagem...

E dirigiu­se para lá.

Das janelas do pavilhão derramava­se no mar uma doce claridade, cor de pérola, que se embebia no silêncio da noite como um plácido suspiro de absoluto repouso.

Gabriel comprimiu o peito com as mãos. Sentia por dentro o ciúme comer­lhe o coração a dentadas.

Ah! como poderia o mísero suportar a idéia de que Ambrosina naquele instante desfalecesse de amor nos braços de outro homem? Como poderia admitir que aqueles lábios, que só com uma única palavra lhe enlearam toda a existência, dissessem a outro o mesmo "Amo­te", que a ele encheu o coração de esperanças, transformadas agora em negras fezes?... E que aqueles olhos, e que aquele colo, e que toda aquela divina carne, desmaiassem e palpitassem na síncope do primeiro enlace dos sentidos, sem ser nos braços dele?. .. dele, que tanto a reclamava no ardor do seu desejo apaixonado!

— Ambrosina! minha formosa Ambrosina!... balbuciava o infeliz, a fitar a dúbia claridade das janelas do pavilhão; como te deixaste fascinar por outro... como pudeste, infiel e querida companheira de meus sonhos, crer, houvesse neste mundo alguém, a não ser eu, capaz de merecer­te e capaz de amarte como deves ser amada? Louca! tu me perdeste para a tua felicidade, e de mim próprio me privaste! Repousa no teu engano, embriaga­te de traição, bebe, indiferente e feliz, as curtas horas sobejadas do amor, porque amanhã o teu despertar há de ser amargo e pressago! Hei de com o meu sangue enodarte as núpcias! hei de com o meu cadáver tolher­te a estrada! O morto, que ao alvorecer terás sob as tuas janelas, há de quebrar­te na mentirosa boca o sorriso que trouxeres para a luz do dia! há de gelarte no peito a doce recordação da tua primeira noite de mulher, e há de acompanhar­te pela vida como a própria sombra da perfídia que habita tua alma!

E, ao terminar estas palavras, já Gabriel se havia arrastado até à flórida porta do pavilhão cor­de­rosa, e aí arrancando do punhal, pousou sobre estes os olhos com profunda e magoada expressão de ternura.

Depois de contemplar por longo tempo a primorosa arma, enquanto dos olhos lhe corriam as derradeiras lágrimas, levou­a piedosamente aos lábios, murmurando de joelho, como se orasse a mais íntima das preces:

(continua...)

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