Por Machado de Assis (1886)
— Não saiu ainda o despacho, mas há de sair daqui a um mês.
— Ainda um mês!
— Todavia o ministro exige que durante este tempo eu vá à província de *** cumprir uma missão toda pessoal e não política. Não acha que devo ir?
— Deve...
— Não faço despesa alguma. Tudo corre por conta do ministro...
— Um mês! exclamou Emília.
— Um mês, é verdade.
— Tanto tempo!
— Depressa se passa. Coragem, minha... D. Emília.
Vicente ficou contente por ver que em breve se realizavam os seus desejos, e nesse sentido falou a Emília, dizendo-lhe que não se assustasse com a viagem de Valentim. — Mas eu tenho medo de duas coisas.
— O que é? perguntou o namorado.
— O mar...
— Ora, o mar.
— E o esquecimento...
— O esquecimento!
— Jura?
— Pela mão de seu pai...
E Valentim beijou respeitosamente a mão de Vicente.
Depois, para expelir da cabeça de Emília as idéias que lhe haviam entrado, Valentim continuou a conversar com Vicente:
— Com que, então, disse ele, vamos ser colegas, empregados públicos...
— Ah! não... respondeu Vicente; este casamento dá-me duas aposentações: a de pai e a de empregado público.
— Ah! deixa a secretaria?
— Deixo; tenho já anos de serviços...
Separaram-se todos, e Valentim tratou de cuidar dos preparativos de viagem. As apreensões de Emília dissiparam-se às palavras brandas e persuasivas de Vicente, e no fim de oito dias a moça estava alegre e contente como dantes. Dai a três dias devia partir
Valentim.
A alegria que por momentos voltara a Emília desaparecia nas vésperas da partida do vapor. Era natural. Emília passava as noites em claro, chorava, rezava a Deus, à Virgem, aos santos, para que a viagem fosse rápida e feliz, e sobretudo para que, sob a ação do novo clima, Valentim não se esquecesse dela. Na véspera da partida Valentim tomou chá em casa de Vicente; foi um chá triste e desconsolado. Vicente procurava alegrar a conversação, mas via-se que ele próprio estava contrafeito.
Às dez horas despediu-se Valentim, prometendo-lhe Vicente que iria no dia seguinte ao bota-fora do vapor.
Valentim e Emília tinham a voz cortada pelas lágrimas. O moço mal pôde beijar a mão à rapariga e fugir para a porta.
A moça desatou a chorar.
Vicente consolou-a como pôde, dizendo-lhe palavras de animação e dando-lhe mil garantias da rapidez da viagem e do amor de Valentim.
Às onze horas Emília retirou-se para o seu quarto.
Aí pôde chorar mais à vontade. Enquanto as lágrimas lhe corriam ela fazia forças para resistir à ausência.
Quando as lágrimas cessaram de correr, a moça dirigiu-se para um oratório em que havia um crucifixo de marfim, e ajoelhada pediu a Deus que favorecesse a viagem de Valentim. Seus pensamentos elevaram-se puros a Deus como eram puras as palpitações do seu coração virgem e sinceramente apaixonado.
No meio das suas orações ouviu bater meia-noite.
Era tarde.
Levantou-se disposta a descansar e conciliar, se pudesse, o sono.
Mas um súbito rumor da parte da rua fê-la chegar à janela.
Não quis abrir e espiou pelas venezianas.
Recuou.
Tinha dado com os olhos no rosto de Valentim.
A janela abriu-se e Valentim apareceu aos olhos da moça...
A moça hesitou; recuou ainda, mas depois vencida por força interior, força inocente e amorosa, foi à janela e beijou a testa do amante.
— Obrigada, disse ela. Parece que te devia este beijo todo do coração... Seguiu-se um momento de silêncio. Um olhar profundo, intenso, e reflexão do coração, prendeu aquelas duas almas por longos minutos.
Depois Valentim começou a beijar os cabelos e as mãos de Emília. Emília tinha uns belos olhos pretos que se escondiam sob os cílios ante as caricias do amante apaixonado. Meia hora passou-se assim.
Só no fim desse tempo ocorreu a Emília perguntar onde estava apoiado Valentim. Valentim apoiava-se numa escada leve e construída de modo a poder dobrar-se. É preciso acrescentar que o que facilitava esta escalada de Romeu era a solidão do lugar, cujo morador mais próximo estava a cem passos dali.
Valentim só reparou que estava fatigado quando esta pergunta lhe foi dirigida por Emília. Então sentiu que tinha as pernas frouxas e ia sendo presa de uma vertigem. Para não cair agarrou-se à janela.
— Ah! exclamou Emília.
E Valentim, não podendo segurar-se, julgou dever saltar para dentro. E saltou.
A escada ficou pendente e oscilou um pouco pela impressão do movimento de Valentim. A janela conservou-se aberta.
Estava uma noite linda, linda como aquelas em que os anjos parece que celebram no céu as festas do Senhor.
Valentim e Emília encostaram-se à janela.
— Amar-me-ás sempre? perguntou Emília fitando namorados e ciosos olhos no seu amante.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.