Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

«A velha tornou a olhar-me com sorpresa e talvez piedade; e eu que não tenho nem a delicadeza, nem a graça das senhoras, em vez de fazer escorregar algum dinheiro para baixo de travesseiro da velha, lancei-lhe no collo a minha carteira, e sahi pela porta afora, meio atrapalhado com as bênçãos e com os agradecimentos da pobre mulher.

« Em vez de ir para o theatro, fui logo direito para casa, onde encontrei minha mãe e minha irmã, que desde que começou o cholera não vão nem á opera lyrica, nem ao baile, e nem saem de noite com medo do sereno.

« Contei-lhes o que me havia acontecido, e ellas, mettendo o negocio á bulha, acabarão, como sempre costumão, por me dar e gracioso titulo de doido.

« Mas amanhã é domingo, e a bolsa de seda virá provar que eu sou um rapaz de muito juizo.

O meu amigo Constando fez ponto final e olhou para mim.

— E que mais ?... perguntei.

— Por ora nada mais : deixarás o romance interrompido n'este ponto, e prometterás concluil-o na proxima Semana.

— Bem ; mas deves ao menos deixar esclarecido um ponto.

— O que?...

— A côr da bolsa de seda.

— N'essa não cahia eu : a côr de bolsa é o meu segredo ; ainda não estou casado, e emquanto não me casar não darei a ninguém os meios de descobrir quem é abella do meu sonho. Espera até amanhã, que é domingo.

— Mas tu contas demais com a tua perspicacia : como poderás descobrir no leilão de amanhã quem teceu a bolsa de seda, se os objectos offerecidos para o leilão não trazem os nomes das dignas senhoras que os offertão?...

— Tudo se sabe no mundo, meu caro : e a diligencia é a mãe da boa ventura. O que eu quero é ver a bolsa de seda no leilão de amanhã; mais fica por minha conta.

— Bem; mas vê que estás obrigado a dar-me a continuação e o desfecho d'este romance.

— Está subentendido.

— Tu o promettes ?...

— Palavra de honra! disse Constancio, estendendo theatralmente a mão direita.

— E quando ?...

— No dia e ás horas em que tiveres de começar a escrever a tua semana para o próoximo domingo.

— Excellentemente : sabbado ao meio-dia.

Sabbado ao meio-dia : conta commigo.

II

No sabbado seguinte pelas onze horas da manhã já eu me achava ancioso esperando o meu amigo Constancio. Esperei inutilmente uma. hora, e dei um salto de alegria ouvindo o signal de meio-dia dado em uma egreja vizinha.

Era o momento aprazado.

— Até que emfim ! disse eu.

Soou a decima segunda dabalada, e appareceme vivo e alegre, como sempre, o meu amigo Constancio.

— O desfecho do romonce ?... grito correndo para elle.

— Sou um tolo, responde-me o pobre

Constancio.

— Ah meu amigo ! o quo eu queria que me desses, era alguma novidade.

— Escuta : comprometti-me a contar-te o fim da minha aventura ; eis-me aqui ; mas não sei se já estou no meio d'ella.

— Seja como fôr, refere-me o que houve.

— Fui ao leilão, ou antes á exposição de domingo : corri, examinei um por um todos os objectos.

— E então?... que viste?...

— Nada, porque lá não se achava a minha suspirada bolsa de seda, : o meu anjo da caridade tinha adivinhado o meu plano, e não quiz expor a sua delicada obra : fiquei furioso, e vinguei-me fatiando contra a mesquinhez com que mal corresponderão aos esforços caridosos de tantas e tão respeitaveis senhoras.

— E depois?...

— Esperei até o fim da festa ; esperei ainda muito tempo, até que o porteiro da academia mostrou-me com toda a delicadeza a porta da rua, e sahi emfim ; mal tinha porém dado alguns passos, chega-se a mim uma pobre velha envolta n'uma mantilha. Eu estava de máo humor e voltei-lhe as costas.

— Compaixão, senhor ! uma esmola pelo amor de Deos !

Lembrei-me da minha desconhecida : metti a mão no bolso, e tirei uma moeda de prata.

A velha estendeu as mãos abrindo uma bolsa para receber a esmola.

Oh ! era a bolsa de seda. ! conheci-a immediatamente pela côr : era a minha bolsa ; agarrei-me a ella.

—A quem, homem ?... á velha ?...

— Não ; á bolsa.

— Ainda bem.

— Quanto quer por esta bolsa ?... donde lhe veio esta bolsa ?... quem a teceu ?... quem lh'a

deu?... A velha ficou espantada o respondeu-me a tremer.

— Esta bolsa... foi uma senhora que me soccorre que a deu de presente a uma netinha que tenho.

— Pois eu a quero ; compro-a.

— Esto bolsa não se vende, disse a velha.

— N'esse caso tomo-a de graça.

— Oh ! se é assim, dê o senhor o que quizer por ella; mas olhe que não é vendida, é trocada, como uma reliquia.

Sem ser fidalgo, dei pela bolsa mais do que... porém vamos adiante ; nada de má lingua.

— Como se chama, e onde mora a senhora que deu esta prenda á sua neta ?...

— Chama-se irmã dos pobres, segundo ella diz ; e deve morar certamente em alguma casa que ella não diz onde é.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...23456...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →