Por Martins Pena (1846)
PEDESTRE – Quanto mais se não vivesse...
BALBINA – Que culpa tenho, se alguém se lembra de escrever-me? Não posso prevenir isso... Escrevem-me, mandam a carta por um negro... e sou eu quem pago, eu, que não tenho culpa nenhuma! Meu pai, perdoe-me! Indague quem foi a pessoa que escreveu-me e castiga-o... Mas eu? Oh, perdão, meu bom paizinho!
PEDESTRE – Levanta-te. Olha, tu não levarás os bolos por esta, mas também não me hás de embaçar mais. Porém quero saber quem é o sujeitinho que quer armar o estratagema para lograr-me. Lograr-me! A mim, que sou macaco velho no ofício... Quero ver se é capaz de pôr o pé nesta casa ou se te fará dar um só passo daqui para fora. Então, não sabes ele quem é?
BALBINA – Já lhe disse que não, meu pai.
PEDESTRE – Está bem, chama tua madrasta. Toma a chave. Ela mo dirá.
(Balbina vai abrir a porta e sai por ela.)
CENA VII
PEDESTRE, e PAULINO no armário. PEDESTRE passeia, pensativo, de um para outro lado da sala.
PAULINO, à parte, no armário – No que diabo estará ele pensando!
PEDESTRE – Estratagema! Qual será o estratagema? É preciso toda a cautela... Ora, eis ai está! Fecham-se, aferrolham-se estas mulheres e elas sempre acham uma abertazinha para nos pregarem mesmo na menina do olho... Ah, mas deixem-nas comigo... Só fica logrado aquele que as não conhece. Porta sempre fechada – e os melros que andem por fora da gaiola...
PAULINO, à parte, no armário – Dentro já estou eu...
ALEXANDRE, à parte, no buraco da porta – Eu cá estou de dentro...
PEDESTRE – Veremos quem é capaz de lograr-me .. Lograr André Camarão! Cá a menina, levarei a palmatória. Santa panacéia para namoros! E minha mulher... Oh, se lhe passar somente pela ponta dos cabelos a idéia de enganar-me, de se deixar seduzir... Ah, nem falar nisso, nem pensar! Eu seria um tigre, um leão, um elefante! A mataria, a enterraria, a esfolaria viva. Oh, já tremo de furor! Vi muitas vezes Otelo no teatro, quando ia para platéia por ordem superior. O crime de Otelo é uma migalha, uma ninharia, uma nonada, comparado com o meu... Enganar-me! Enganar, ela! Ah, nem sei do que seria capaz! Amarrados ela e o seu amante, os mandaria de presente ao diabo, acabariam na ponta desta espada, nas unhas destas mãos, no talão destas botas! Nem quero dizer do que seria capaz.
PAULINO, à parte, no armário – Deus se compadeça de mim!
PEDESTRE – Oh, mataria o gênero humano, se o gênero humano seduzisse minha mulher!
PAULINO, à parte – Quem me reza por alma?
PEDESTRE – Ela que chega... E eu não me fio nela...
CENA VIII
Os mesmos, ANACLETA e BALBINA.
ANACLETA – Mandou-me chamar?
PEDESTRE – Sim, espere. E tu, (para Balbina) vai aquentar uma xícara de café, que tenho a cabeça muito esquentada. (Balbina sai.)
PAULINO, à parte – Atenção...
PEDESTRE, para Anacleta – Chegue-se para cá. (Assenta-se.)
ANACLETA, aproximando-se – Aqui me tem.
PEDESTRE – Quem vem a esta casa quando eu estou fora?
PAULINO, à parte – Ninguém...
ANACLETA – Zombas comigo? (Olhando ao redor de si:) Ele saiu...
PEDESTRE – Responda ao que lhe pergunto. Quem vem a esta casa?
ANACLETA – Quando sais não fechas todas as portas e não nos deixas presas cada uma de seu lado? Como queres que aqui venha alguém?
PEDESTRE, levantando-se – Portas fechadas! Que valem portas fechadas? As fechaduras não têm buraco?
ANACLETA, à parte – Com que homem casei-me eu!
PEDESTRE, à parte – Hei de ver se descubro umas fechaduras sem buraco... (Alto:) Anacleta, ouve bem o que te vou dizer. Tu me conheces, e sabes se sou capaz de fazer o que digo – e ainda mais. Sempre que saio deixo esta casa fechada, portas e janelas, e sempre que aqui estou tenho os olhos alerta. E apesar de todas estas cautelas, Balbina enganou-me.
ANACLETA – Enganou-te?
PEDESTRE – Tem um amante, recebe cartinhas e está fiada em um estratagema para lograr-me. (Olha ao redor de si.) Mas isso veremos... Mas onde diabo viu ela esse sujeito? Quando, como? Aqui está o que me amofina, o que derrota a minha finúria de pedestre e faz-me andar a cabeça à roda. Tantas cautelas, e por fim logrado! Ah, mulheres! Diabos! Vamos, tu deves saber quem é ele? Como se chama? Onde foi que Balbina o viu? Em que lugar? Por que buraco? Por que greta?
ANACLETA – Nada sei.
PEDESTRE, pegando-lhe no braço, furioso – Nada sabes?
ANACLETA – Não!
PEDESTRE – Mulher!
ANACLETA – Matai-me, porque deixarei de sofrer!
(continua...)
PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.