Por Machado de Assis (1906)
BARÃO
— Uma paixão louca de meu sobrinho pode impedir que... Minhas senhoras, não desejo roubar-lhes mais tempo... Confio em V. Exa., minha senhora... Ser lhe-ei eternamente grato. Minhas senhoras. (Faz uma grande cortesia e sai.)
Cena VII
D. Helena, D. Leonor
D. LEONOR, rindo
— Que urso4!
D. HELENA
— Realmente...
D. LEONOR
— Perdôo-lhe em nome da ciência. Fique com as suas ervas, e não nos aborreça mais, nem ele nem o sobrinho.
D. HELENA
— Nem o sobrinho?
D. LEONOR
— Nem o sobrinho, nem o criado, nem o cão, se o houver, nem coisa nenhuma que tenha relação com a ciência. Enfada-te? Pelo que vejo, entre o Henrique e a Cecília há tal ou qual namoro?
D. HELENA
— Se promete segredo... há.
D. LEONOR
— Pois acabe-se o namoro.
D. HELENA
— Não é fácil. O Henrique é um perfeito cavalheiro; ambos são dignos um do outro. Por que razão impediremos que dois corações...
D. LEONOR
— Não sei de corações, não hão de faltar casamentos a Cecília. D. HELENA — Certamente que não, mas os casamentos não se improvisam nem se projetam na cabeça; são atos do coração, que a igreja santifica. Tentemos uma coisa. D. LEONOR — Que é?
D. HELENA
— Reconciliemo-nos com o barão.
D. LEONOR
— Nada, nada.
D. HELENA
— Pobre Cecília!
4 No texto: sinônimo de bicho-do-mato, provinciano, pessoa antiquada.
D. LEONOR
— É ter paciência, sujeite-se às circunstâncias... (A D.. Cecília, que entra.) Ouviste?
D. CECÍLIA
— O que, titia?
D. LEONOR
— Helena te explicará tudo. (A D. Helena, baixo.) Tira-lhe todas as esperanças. (Indo-se.) Que urso! Que urso!
Cena VIII
D. Helena, D. Cecília
D. CECÍLIA
— Que aconteceu?
D. HELENA
— Aconteceu... (Olha com tristeza para ela.)
D. CECÍLIA
— Acaba.
D. HELENA
— Pobre Cecília!
D. CECÍLIA
— Titia recusou a minha mão?
D. HELENA
— Qual! O barão é que se opõe ao casamento.
D. CECÍLIA
— Opõe-se!
D. HELENA
— Diz que a ciência exige o celibato do sobrinho. (D. Cecília encosta se a uma cadeira.) Mas, sossega; nem tudo está perdido; pode ser que o tempo... D. CECÍLIA — Mas quem impede que ele estude?
D. HELENA
— Mania de sábio. Ou então, evasiva do sobrinho.
D. CECÍLIA
— Oh! não! é impossível; Henrique é uma alma angélica! Respondo por ele. Há de certamente opor-se a semelhante exigência...
D. HELENA
— Não convém precipitar as coisas. O barão pode zangar-se e ir embora.
D. CECÍLIA
— Que devo então fazer?
D. HELENA
— Esperar. Há tempo para tudo.
D. CECÍLIA
— Pois bem, quando Henrique vier...
D. HELENA
— Não vem, titia resolveu fechar a porta a ambos.
D. CECÍLIA
— Impossível!
D. HELENA
— Pura verdade. Foi uma exigência do barão.
D. CECÍLIA
— Ah! conspiram todos contra mim! (Põe as mãos na cabeça.) Sou muito infeliz! Que mal fiz eu a essa gente? Helena, salva-me! Ou eu mato-me! Anda, vê se descobres um meio...
D. HELENA, indo sentar-se
— Que meio?
D. CECÍLIA, acompanhando-a
— Um meio qualquer que não nos separe!
D. HELENA, sentada
— Há um.
D. CECÍLIA
(continua...)
ASSIS, Machado de. Lição de botânica. Rio de Janeiro, 1906.