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#Comédias#Literatura Brasileira

O Namorador ou a Noite de São João

Por Martins Pena (1845)

JÚLIO, forcejando – Insolente!

CENA III

Clara junto deles.



CLARA – Então, o que é isto? (Os dois surpreendem-se e apartam-se.)


LUÍS – Não é nada, minha tia, estávamos experimentando forças.

CLARA – Ora, deixemos agora disso. Venham dançar, que faltam pares. Venham.

LUÍS – Vamos, tiazinha. (Para Júlio:) Vou apertar o namoro. Viva S. João! (Sai dando viças.)


CLARA, rindo-se – É um doudo este meu sobrinho. Venha, Sr. Júlio.

JÚLIO – Já vou, minha senhora. (Clara sai.)

CENA IV

Júlio, só.

JÚLIO – O que hei-de eu fazer? Talvez fiz mal em levar as coisas a este extremo. Luís principia os namoros e os deixa com a mesma facilidade. Não me devia inquietar. Maldito ciúme! Estou em uma cruel perplexidade. Devo hoje mesmo declarar-me com o Sr. João Félix e pedir-lhe a filha. Vã esperança! Estou certo que ele não consentirá; não tenho fortuna. Meu Deus! (Sai vagaroso.)

CENA V

Enquanto Júlio dirige-se para o fundo, entra pela direita baixa o ilhéu, seguido de quatro pretos, trazendo os dois primeiros lenha, o terceiro um cesto à cabeça, e o quarto um feixe de cana.

MANUEL – Paizinhos, vão acabar de fazer a fogueira. Levem primeiro vocês a cana e os carás à Senhora. (Manuel fala como os ilhéus, isto é, cantando. Os negros da lenha vão acabar de fazer a fogueira; os outros dois saem pelo fundo. Manuel, só:) Cá no Brasil é como na minha terra; também se festeja a noite de S. João. Quem me dera no Tojal! Há dois anos que aqui estou trabalhando para ganhar dinheiro e para lá voltar. Oh, quem pudera viver sem trabalhar! Cresce-me água à boca, quando vejo um rico. São os felizes, que cá o homem anda de canga ao pescoço.

CENA VI

Entra Maria com uma cesta à cabeça.

MANUEL – O que levas aí, Maria?

MARIA – A roupa que estava no campo a secar.

MANUEL – Pois ainda agora? Vem cá. (Maria deixa a cesta à porta da casinha e caminha para Manuel.)

MARIA – A senhora tomou-me o tempo e não deixou-me recolhê-la com dia. Andamos a arranjar a casa para a companhia.

MANUEL – E ela é que diverte com os seus, e nós trabalhamos.

MARIA – O que queres, Manuel? Somos pobres, que Deus assim nos fez.

MANUEL – E é do que me queixo. Todo o dia com a enxada na mão, e ainda em cima ter olhos nos paizinhos, que são peores que o diabo.

MARIA – Anda lá, não te queixes tanto, que lá no Tojal éramos mais desgraçados. Não sei como não morríamos de fome. Ganhavas seis vinténs por dia ao rabo da enxada, e cá o senhor te estima; pagou a nossa passagem.

MANUEL – Quisesse Deus que eu tivesse algum dinheirinho junto! Pagaria ao senhor o resto que lhe devo e ia comprar um burro e uma carroça para vender a iágua. O Zé voltou para S. Miguel com cinco mil cruzados que assim ganhou.

MARIA – Se puderas fazer isso, eu ficava com a senhora. Este vestido deu-me ela, e este xale também, e outros me dará ainda.

MANUEL – Pois se eu sair, sairás também, senão te desanco.

MARIA – Ai!

MANUEL – Pensas que eu não sei porque queres ficar?

MARIA – Ai, que me impacientas!

MANUEL – Bem vejo o senhor a te fazer roda como um peru.

MARIA – Esta besta! O senhor a fazer-me roda, tão velho como é? Ai, que me rio desta!

MANUEL – Vai-te rindo, bestinha, até que chores.

CLARA, da porta da casa – Maria?

MARIA – Adeus, que a senhora chama-me. Esta besta!

MANUEL – Anda com cuidado, que te tenho o olho em riba.

MARIA – Olha que cansarás a vista, animal.

CENA VII

MANUEL, – Assim vive um homem de Deus a lavrar a terra e a vigiar a mulher. Forte ocupação, que o diabo leve! (Para os negros:) Anda paizinhos, acabem essa fogueira e vão arrumar o capim na carroça para ir para cidade. (Os dois negros saem.) Se o senhor continua a fazer festas a Maria, hei-de dizer à senhora, que não é para brincos. (Sai. Logo que Manuel sai, chega do fundo João.)

CENA VIII

(continua...)

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