Por José de Alencar (1874)
— Esta arma que tu vês é a lança de duas pontas. Jaguarê fabricou-a do rijo galho da craúba, endurecido pelo fogo. Sua mão foi a primeira que a arremessou e teu corpo é o primeiro cujo sangue ela vai beber. Empunha a lança de duas pontas, guerreiro chefe, e ataca Jaguarê para receberes a morte dos valentes.
Pojucã repeliu a lança que o jovem caçador lhe apresentara.
— Jamais no combate um guerreiro tocantim atacará seu adversário desarmado; nem Pojucã precisa da lança. Ataca tu, Jaguarê, que não tens confiança em teu braço; o de Pojucã basta para te prostrar.
— O orgulho te cega, guerreiro chefe. A lança conhece Jaguarê que a inventou e lhe obedece como o arpão à corda do pescador. Aperta-a bem em tua mão robusta, e Jaguarê estará duas vezes mais armado do que tu, que não sabes manejá-la.
O chefe tocantim cruzou os braços.
— Toma a lança, Pojucã, se não queres que te chame covarde; pois tu sabes que Jaguarê não te matará desarmado, mas te abandonará como indigno de combater com o filho do maior guerreiro araguaia, o grande Camacã.
O chefe tocantim arrojou-se contra Jaguarê que travou-lhe dos pulsos, e outra vez os dois campeões ficaram imóveis.
A noite veio achá-los na mesma posição. Três vezes cessaram a luta, e de novo a travaram. Mas afinal se convenceram que nenhum derrubaria o outro.
Então Pojucã disse
— Guerreiro araguaia, é preciso acabar o combate. A terra não chega para dois guerreiros como nós. Finca no chão a lança e caminhemos até a margem do rio. Aquele que primeiro chegar, será o senhor da lança e da vida do outro.
Assim fizeram os dois campeões. Chegados à margem do rio, dispararam a corrida. Ao mesmo tempo a mão de ambos tocou a haste da lança; mas Jaguarê, arremessado pelo ímpeto da desfilada, não pôde arrancar a arma que ficou na mão de Pojucã.
O guerreiro chefe enrista desdenhosamente a lança e caminha para Jaguarê. Não vai como o guerreiro que marcha ao combate, mas como o matador que se prepara para imolar a vítima.
— Guerreiro chefe, Jaguarê não te quer matar como a serpente que ataca o descuidado caçador. Dez vezes já, se quisesse, ele te houvera ferido com tua própria mão.
— Abandona a glória do guerreiro, que não é para ti, nhengaíba. Pojucã te concederá a vida e te levará cativo à taba dos tocantins para que tu cantes as suas façanhas na festa dos guerreiros.
— Cativo serás tu, mas não para cantar os feitos dos guerreiros. Tu servirás na taba dos araguaias para ajudar as velhas a varrer a oca.
Arremessou-se Pojucã avante e desfechou o golpe; mas a lança rodara e foi o chefe tocantim quem recebeu no peito a ponta farpada.
Quando o corpo robusto de Pojucã tombava, cravado pelo dardo, Jaguarê d'um salto calcou a mão direita sobre o ombro esquerdo do vencido, e brandindo a arma sangrenta, soltou o grito do triunfo
— Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencível que tem por arma a serpente. Reconhece o teu vencedor, Pojucã, e proclama o primeiro dos guerreiros, pois te venceu a ti, o maior guerreiro que existiu antes dele.
— Se meu valor, que serviu para aumentar a tua fama, merece de ti uma graça, não deixes que Pojucã sofra mais um instante a vergonha de sua derrota.
— Não, chefe tocantim. Tu me acompanharás à taba dos araguaias para narrar o meu valor. A fama de Jaguarê precisa de um prisioneiro como o grande Pojucã na festa da vitória.
— Tu és cruel, guerreiro da lança; mas fica certo que se tua arma traiçoeira feriu-me o peito, o suplício não vencerá a constância do varão tocantim, que sabe afrontar as iras de Tupã e desprezar a vingança dos araguaias.
O GUERREIRO
Retumba a festa na taba dos araguaias.
As fogueiras circulam a vasta ocara e derramam no seio da noite escura as chamas da alegria.
Toda a tarde o trocano reboou chamando os guerreiros das outras tabas à grande taba do chefe.
Era a festa guerreira de Jaguarê, filho de Camacã, o maior chefe dos araguaias.
No fundo da ocara, preside o conselho dos anciões, que decide da paz ou da guerra e governa a valente nação.
Os anciões, sentados no longo jirau, contemplam taciturnos a geração de guerreiros que eles ensinaram a combater, e têm saudades da passada glória.
Suspenso em frente deles está o grande arco da nação araguaia, ornado nas pontas das penas vermelhas da arara.
É a insígnia do chefe dos guerreiros, a qual Camacã, pai de Jaguarê, conquistou na mocidade e ainda conserva, pois ninguém ousa disputá-la.
Ei-lo, o velho chefe, embaixo do arco, que sua mão tantas vezes brandiu na guerra. Em pé, arrimado ao invencível tacape, ele dirige a festa.
De um e outro lado da vasta ocara, está a multidão dos guerreiros, colocados por sua ordem primeiro os chefes das tabas; depois os varões; por último os moços guerreiros.
Vêm depois os jovens caçadores que já deixaram a oca materna e estão impacientes de ganhar por suas proezas a honra de serem admitidos entre os guerreiros.
(continua...)
ALENCAR, José de. Ubirajara. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16679 . Acesso em: 28 jan. 2026.