ASSIS, Machado de. Linha reta e linha curva. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1871.
Por Machado de Assis (1871)
- Com ele fazem dous.
Diogo jubiloso pelo efeito que causava a notícia do presente, mas iludido no caráter desse efeito disse:
- Não vale a pena. É um urso que eu mandei vir; é verdade que eu pedi dos mais belos. Não sabem o que é um urso branco. Imaginem que é todo branco.
- Ah! disse Tito.
- É um animal admirável! tornou Diogo.
- Acho que sim, disse Tito. Ora imagina tu o que não será um urso branco que é todo branco. Que faz este sujeito? perguntou ele em seguida a Azevedo.
- Namora a Emília; tem cinqüenta contos.
- E ela?
- Não faz caso dele.
- Diz ela?
- E é verdade.
Enquanto os dous trocavam estas palavras, Diogo brincava com os sinetes do relógio e as duas senhoras conversavam. Depois das últimas palavras entre Azevedo e Tito, Emília voltou-se para o marido de Adelaide e perguntou:
- Dá-se isto, Sr. Azevedo? Então faz-se anos nesta casa e não me convidam?
- Mas a chuva? disse Adelaide.
- Ingrata! Bem sabes que não há chuva em casos tais.
- Demais, acrescentou Azevedo, fez-se a festa tão à capucha. - Fosse como fosse, eu sou de casa.
- É que a lua-de-mel continua apesar de cinco meses, disse Tito.
- Aí vens tu com os teus epigramas, disse Azevedo.
- Ah! isso é mau, Sr. Tito!
- Tito? perguntou Emília a Adelaide em voz baixa.
- Sim.
- D. Emília não sabe ainda quem é o nosso amigo Tito, disse Azevedo. Eu até tenho medo de dizê-lo.
- Então é muito feio o que tem para dizer?
- Talvez, disse Tito com indiferença.
- Muito feio! exclamou Adelaide.
- O que é então? perguntou Emília.
- É um homem incapaz de amar, continuou Adelaide. Não pode haver maior indiferença para o amor... Em resumo, prefere a um amor... o quê? um voltarete.
- Disse-te isso? perguntou Emília.
- E repito, disse Tito. Mas note bem, não por elas, é por mim. Acredito que todas as mulheres sejam credoras da minha adoração; mas eu é que sou feito de modo que nada mais lhes posso conceder do que uma estima desinteressada.
Emília olhou para o moço e disse:
- Se não é vaidade, é doença.
- Há de me perdoar, mas eu creio que não é doença, nem vaidade. É natureza: uns aborrecem as laranjas, outros aborrecem os amores: agora se o aborrecimento vem por causa das cascas, não sei; o que é certo é que é assim.
- É ferino! disse Emília olhando para Adelaide.
- Ferino, eu? disse Tito levantando-se. Sou uma seda, uma dama, um milagre de brandura... Dói-me, deveras, que eu não possa estar na linha dos outros homens, e não seja, como todos, propenso a receber as impressões amorosas, mas que quer? a culpa não é minha.
- Anda lá, disse Azevedo, o tempo te há de mudar.
- Mas quando? Tenho vinte e nove anos feitos.
- Já vinte e nove? perguntou Emília.
- Completei-os pela Páscoa.
- Não parece.
- São os seus bons olhos.
A conversa continuou por este modo, até que se anunciou o jantar. Emília e Diogo tinham jantado, ficaram apenas para fazer companhia ao casal Azevedo e a Tito, que declarou desde o princípio estar caindo de fome.
A conversa durante o jantar versou sobre cousas indiferentes.
Quando se servia o café apareceu à porta um criado do hotel em que morava Diogo; trazia uma carta para este, com indicação no sobrescrito de que era urgente. Diogo recebeu a carta, leu-a e pareceu mudar de cor. Todavia continuou a tomar parte na conversa geral. Aquela circunstância, porém, deu lugar a que Adelaide perguntasse a Emília:
- Quando te deixará este eterno namorado?
- Eu sei cá! respondeu Emília. Mas afinal de contas, não é mau homem. Tem aquela mania de me dizer no fim de todas as semanas que nutre por mim uma ardente paixão.
- Enfim, se não passa de declaração semanal...
- Não passa. Tem a vantagem de ser um braceiro infalível para a rua e um realejo menos mau dentro de casa. Já me contou umas cinqüenta vezes as batalhas amorosas em que entrou. Todo o seu desejo é acompanhar-me a uma viagem à roda do globo. Quando me fala nisto, se é à noite, e é quase sempre à noite, mando vir o chá, excelente meio de aplacar-lhe os ardores amorosos. Gosta do chá que se péla. Gosta tanto como de mim! Mas aquela do urso branco? E se realmente mandou vir um urso?
- Aceita.
- Pois eu hei de sustentar um urso? Não me faltava mais nada! Adelaide sorriu-se e disse:
- Quer me parecer que acabas por te apaixonar...
- Por quem? Pelo urso?
- Não, pelo Diogo.
(continua...)