Por José de Alencar (1872)
Debuxava-se na tela acetinada o vulto airoso de linda moça, que montava com elegância um cavalo isabel. A alvura de sua tez fresca e pura escurecia o mais fino jaspe. Nem os raios do sol, nem o exercício acenderam uma rosa mesmo pálida em sua face, cândida como a pétala do jasmim. A seiva dessa mocidade, o viço dessa alma, não se expandia no rubor da cútis, mas no olhar ardente e esplêndido dos grandes olhos negros, e no sorriso mimoso dos lábios, que eram um primor da natureza.
Admirando aquele rosto encantador, ninguém reparava na sua palidez; ao contrário parecia que os tons rosados maculariam a alvura do lírio. A alma que se derrama assim em ondas no olhar e no sorriso, está no íntimo, no coração, donde se desprende em centelhas; não pode tingir as faces.
Um roupão de caxemira verde-escura, debruado a cairel de seda preta, com abotoadura de aço, moldava um talhe esbelto, que parecia talhado em mármore, tal era a correção das linhas e a harmonia dos contornos. O gracioso chapéu de castor cor de pérola, em vez de cobrir-lhe a cabeça gentil, pousava como um pombo na rica madeixa negra, que lhe descia caprichosamente pelo pescoço em opulentas cascatas.
Calçava luvas de camurça amarela, cujo longo canhão afunilado cobria-lhe uma parte do braço, mas deixava admirar o pulso delicado, cingido por um punho de cambraia lisa, igual ao colarinho rebatido sobre a gola do roupão. A mão esquerda sustinha as rédeas trançadas com bastante firmeza, porém com a graça fácil que teria segurando no baile o leque ou o ramalhete. A direita suspensa apertava pela haste um chicotinho, cujo cabo de madrepérola parecia machucar nos lábios o sorriso faceiro, que ali brincava, e de vez em quando trinava como um canário.
Da cintura de menina ou de silfo nasciam as amplas dobras do roupão de montar, roçagante sobre os flancos do belo animal. Como na constante ondulação do mar percebe-se, por uma inflexão mais forte, a vaga nascente que se empola, assim no meio das largas pregas do vestido sentia-se o relevo suave da perna esbelta e nervosa, que esticava o loro, enquanto o pé, despeitado por não se mostrar, agitava impaciente o estribo.
O cavalo era digno pedestal daquela estátua de Diana. Alto, airoso, de uma estampa soberba, respirava a elegância altiva e serena, que lhe imprimira a educação britânica. O cavalo do Cabo, de boa raça, tem alguma coisa do lorde: a mesma fleuma aristocrática, o mesmo garbo frio e impassível, a mesma sobriedade do gesto, caracterizam os dois fidalgos.
Tenho para mim que um cavalo do Cabo olha para os cavalos de raça diferente com o mesmo polido desdém que sentia Lorde Derby pela nobreza das outras nações. O lorde inglês apropriou-se do antigo mote dos senhores do mundo, civis sum. O cavalo do Cabo, parodiando a divisa, diz equus sum; eu sou o cavalo por excelência, o fidalgo de raça, o gentleman da estrebaria.
Por isso na atitude do lindo animal montado pela gentil amazona não se via a impaciência fogosa, a vivacidade sôfrega, que sem dúvida ressumbraria no filho da raça brasileira, apesar de muito afastado de sua primitiva estirpe árabe. O lindo isabel, sentindo a doce pressão das rédeas colhidas pela mão da senhora, estacara imóvel, com a firmeza correta de uma posição acadêmica. As pernas lançadas pisavam o chão com rígida elegância; a cauda e a crina conservavam a artística ondulação que lhes imprimira a mão do escudeiro; a cabeça erguida com a arrogância inclinava-se ligeiramente para despedir o olhar oblíquo do orgulho desdenhoso.
Pitt, o grande Pitt, parando no meio de um discurso eloqüente, ao influxo da súbita inspiração de um epigrama, que seu lábio sarcástico ia desferir contra Fox, devia ter no parlamento inglês aquela atitude soberba.
Se a linda moça ficasse ali horas, creio que o seu impassível cavalo não daria sinal de impaciência, nem levantaria a unha aristocrática para escavar o chão. Podiam também as moscas impertinentes pousar na anca; ele não se preocupava com a ralé. Apenas, muito importunado, agitaria o corpo com um movimento semelhante ao do fidalgo que levanta os ombros em sinal de tédio.
Eis o quadro original que Ricardo viu de relance. O vulto da moça, esclarecido por um raio do sol coado entre a folhagem, se estampava no fundo azul, com vigor de colorido e animação de tons admiráveis. Através da névoa sutil que há pouco envolvia seu espírito, o desenhista podia supor um instante que via uma paisagem de Delacroix através da ilusão diáfana de um diorama.
Chegando-se ao arbusto para examinar-lhe a flor, não reparou o moço que, seguindo por dentro do mato, se aproximara do caminho no lugar onde este fazia uma curva. Deitara-se pois voltando costas ao trilho, que lhe ficava a duas braças de distância.
A linda amazona, que vinha ao passo do animal, descobriu o solitário passeador, e pressentiu nele algum desses eternos sonhadores que se chamam poetas ou artistas: gente por quem as mulheres têm o mesmo fraco dos meninos pelas bolhas de sabão; coisa para se ver um instante, enquanto brilha.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.