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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Tinha o cavalo um porte alto e linda estampa; mas nessa ocasião, além da fadiga da longa viagem que devia emagrecê-lo, sobretudo por uma sêca tão rigorosa, o animal vaqueano conhecia que não era ocasião de enfeitar-se, rifar e dar mostras de sua galhardia. De feito tinha mais aspecto do um grande cão montado por seu senhor, do que de um corcel. 

Era o viajante moço de vinte anos, de estatura regular, ágil, e delgado do talhe. Sombreava-lhe o rosto, queimado pelo sol, um buço negro como os compridos cabelos que anelavam-se pelo pescoço. Seus olhos, rasgados e vívidos, dardejavam as veemências de um coração indomável. 

Nesse instante o constrangimento a que a espreita o forçava, tolhia-lhe os movimentos e embotava a habitual impetuosidade; mas ainda assim, nesses agachos de caçador a esgueirar-se pelo mato, percebia-se a flexibilidade do tigre, que roja para arremessar o bote. 

Vestia o moço um trajo completo de couro de veado, curtido à feição de camurça. Compunha-se de véstia e gibão com lavores de estampa e botões de prata; calções estreitos, bolas compridas e chapéu à espanhola com uma aba revirada à banda e também pregada por um botão de prata. 

Ainda hoje êsse trajo pitoresco e tradicional do sertanejo, e mais especialmente do vaqueiro, conserva com pouca diferença a feição da antiga moda portuguesa, pela qual foram talhadas as primeiras roupas de couro. Ultimamente já costumam fazê-las de feitio moderno, mas não têm o valor e estimação das outras, cortadas pelo molde primitivo. 

Trazia o sertanejo, suspensa à cinta, uma catana larga e curta com bainha do mesmo couro da roupa, e na garupa a maleta de pelego de carneiro, com uma clavina atravessada e um maço de relho. 

Quando a comitiva chegou à eminência donde se avistava a oiticica, o viajante acompanhou com os olhos a donzela até que seu vulto gracioso desapareceu entre o arvoredo; e dando volta ao cavalo afastou-se vagarosamente do caminho da fazenda. 

Não tinha, porém, andado vinte braças, que sua fisionomia traiu súbita inquietação. Reclinando sôbre o arção, perscrutou com o olhar o mato que o rodeava. Ouvia-se ao longe um leve crepitar, semelhante ao rugir do vento nas palmas crenuladas da carnaúba. 

O que, porém, mais preocupava o sertanejo era a cálida rajada que ao passar escaldara-lhe o rosto. Arripiando caminho avançou contra o bochorno para verificar a causa, que tinha logo suposto. 

Seu cavalo cardão rompeu o mato a galope, como quem estava acostumado a campear o barbatão no mais espêsso bamburral; e com pouco o sertanejo, atalhando a distância, avistou D. Flor parada além, no caminho. 

A donzela debalde fustigava o baio, que recuava cheio de terror. Também ela sentirase envôlta por uma evaporação ardente, que se derramava na atmosfera e oprimia-lhe a respiração, mas, ocupada em vencer a relutância do animal, não prestara ao incidente maior atenção. 

Nisso levantou-se no mato um fortíssimo estrépito que rolava como o borbotão de uma torrente; e a donzela viu, tomada de espanto, um turbilhão de fogo a assomar ao longe e precipitar-se contra ela para devorá-la. 

Conhecendo então a causa do terror que assustara o animal, e pressentindo o perigo que a ameaçava, lembrou-se a donzela de retroceder; mas outro bulcão de chamas já arrebentava por aquela banda e tomava-lhe o passo. 

O incêndio, causado por alguma queimada imprudente, propagava-se com fulminante rapidez pelas árvores mirradas que não passavam então de uma extensa mata de lenha. A labareda, como a língua sanguinolenta da hidra, lambia os galhos ressequidos, que desapareciam tragados pela fauce hiante do monstro. 

No seio do denso pegão do fumo, que já submergia toda a selva, rebolcava-se o incêndio como um ninho de serpentes, que se arremetiam furiosas, enristando o colo, brandindo a cauda, e desferindo silvos medonhos. 

Ao mesmo tempo parecia que a tormenta percorria a floresta e a devastava. Ouvia-se muir o vento, agitado pelo ressolho ardente e ruidoso das chamas; um trovão soturno repercutia nas entranhas da terra, e a cada instante, no meio do constante estridor da ramagem, reboavam com os surdos baques dos troncos altaneiros os estertores da floresta convulsa. 

Do meio dêsse torvelinho, o dragão de fogo se arremessava desfraldando as duas asas flamantes, cujo bafo abrasado já crestava as faces mimosas de D. Flor, e a revestiam de reflexos purpúreos. 

Entre as duas torrentes ígneas que transbordavam inundando o campo e não tardavam sossobrá-lo, a donzela não desanimou, e fez um supremo esfôrço para arrancar seu cavalo do estupor que lhe causava o terror do incêndio. 

Negros rolos de fumo, porém, a envolveram, e sufocada pelo vapor ela sentiu desfalecer-lhe a vida. 

(continua...)

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