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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

Ao cabo desta lengalenga, que zunia como uma matraca tangida em oficio de trevas por garoto formigão, tomou a Pôncia respiração, mas para despedir-se em nova parlice. 

— A tal rapariguinha... Não digam que foi a Pôncia quem contou. Menos essa, que não quero enredos comigo! A sonsa da Marta anda desinquietando os familiares do prelado. Os minoristas, já se sabe... isso de rapazes perto da cachopa, é como algodão que em lhe tocando fogo, fica logo em labareda!... Mas o Garatuja, como não lhe cheirasse a cousa, lá fez das suas trampolinas, e pregou algum mono à clerezia, a qual se engrilou com o Sebastião Ferreira, e então arrumou-lhe a assuada! Pudera não! Os formigões!... Escrevam, e verão se eu lhes engano. A tramóia toda foi arranjada pelo demônio do Garatuja... Cruzes, filho de Belzebu, engrimanço do porco sujo!... O tabelião e o prelado andam aí vendidos!... Sou capaz de jurar!... Agora se o Almada também está enfeitiçado pela rapariga, e teve algum bate-barba com o tabelião, pelo que assanhou a clerezia contra ele... pode bem ser, não digo que não; mas com certeza o Garatuja andou metido em toda essa embrulhada.  

— Ele pode ser, disse o Sr. Belmiro. Aquele rapaz é das Arábias!... Dizem... 

Levou o pintor a mão esquerda espalmada ao canto direito da boca, à guisa de empanada, e sombreando a voz concluiu: 

— Dizem que tem partes com o demo!... 

— E o senhor anda metido com ele, acudiu a Pôncia. 

— Pela razão do ofício, que o diabo do rapaz tem jeito para a cousa. 

— Vá-se fiando na Virgem e não corra. Um dia, quando estiver desprecatado, ele é capaz de embrulhá-lo nas barafundas do inferno, e pum!... Lá vai! Carrega-o direitinho para as caldeiras do Botelho!... Eu cá, gentes, como por mal de meus pecados moro defronte da arrenegada da mãe, vivo me benzendo!... A rótula, todo o santo é para arredar o mofino, se lhe der na veneta de vir tentar-me!... Credo!... Que só de pensar nisto, estou tremelicando toda por dentro e por fora, que nem passarinha de carneiro!... e um pucarinho d’água benta com seu raminho de alecrim, que todos os domingos trago do colégio, que me dão os bons padres. Santos homens, agarradinhos, é verdade, que nem escorropichado sai daí um tostão!... 

Ia continuar a Pôncia, tosando um tanto a pele aos jesuítas, com que aliás tinha suas privanças; mas agitaram-se outra vez as turmas de gente que cercavam a casa da Câmara por não poderem penetrar no interior, e foi a beguina enrolada em um remoinho, produzido pelo retrocesso da multidão. 

Dera causa a esse rebuliço a entrada no rossio de um ajuntamento de pessoas, que se encaminhavam em forma de cortejo para o senado fluminense. Traziam todas as roupas talares, de estofo preto, como então usava a gente de justiça; e se não eram rigorosamente conformes aos preceitos da pragmática, não davam escândalo, como acontecia na ocasião de festas e até mesmo em visitas do quotidiano. 

O da frente era o ouvidor, e os outros, oficiais da justiça d’El-Rei, por ele postos naquela capitania, que vinham todos unidos em corpo protestar contra a violência inaudita que tinham recebido na pessoa de seu cabeça, o primeiro ministro togado, e presidente da comarca. 

Ali ia também o tabelião Sebastião Ferreira Freire, a causa primeira da mitrada que desfechara o prelado sobre a toga do ouvidor, e que ameaçava de grandes calamidades a cidade de São Sebastião. 

Enquanto os juízes, vereadores e homens bons assentam em conselho no melhor meio de salvar a república, remontemos nós o curso dos acontecimentos para conhecer as causas do imprevisto sucesso, que pôs em alvoroto a população fluminense. 


III 

 

UM TIPO QUE JÁ NÃO SE ENCONTRA NO TEMPO D’AGORA 

 

A Rua do Aleixo Manuel, que só um século depois veio a chamar-se do Ouvidor, quando aí se estabeleceu a residência efetiva do primeiro magistrado da capitania, naquele tempo nem indícios dava da brilhante galeria do luxo e da moda, que se começou a formar com a vinda de ElRei D. João VI, em 1808. 

Muito lhe faltava ainda para merecer o nome de rua, que nem toda a gente lhe dava, dizendo simplesmente: “Para as bandas do Aleixo Manuel”. Teria então meia dúzia de casas; o mais eram cercas ou quintais. 

Próximo à Travessa do Sucussara, via-se ainda a antiga loja do mercador que primeiro ali morara e donde lhe viera o nome; e fronteiras umas casas de taipa com dois lanços, e quatro janelas de rótulas, como eram quase todas naquele tempo. 

(continua...)

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