Por José de Alencar (1860)
Carolina (baixo, à Helena) – E ele?...
Helena – Espere! (Alto) Então aprontou?
Carolina – Sim, senhora; todos.
Helena – E estão bem cosidos, já se sabe! Feitos por estas mãozinhas mimosas que não nasceram para a agulha, e sim para andarem dentro de luvas perfumadas.
Carolina – Luvas?... nunca tive senão um par, e de retrós.
Margarida – Quem te perguntou por isto agora?
Helena – Não faz mal; porém deixe ver os vestidos.
Carolina – Vou mostrar-lhe.
Margarida – É obra acabada às pressas; não pode estar como ela desejava.
Helena – Bem cosidos eles estão; assim me assentem.
Margarida – Hão de assentar. Carolina cortou-os pelo molde da francesa.
Carolina – Apenas fiz um pouco mais decotados como a senhora gosta.
Helena – É a moda.
Margarida – Mas descobrem tanto!
Helena – E por que razão as mulheres hão de esconder o que têm de mais bonito?
Carolina – É verdade!...
Helena (a Margarida) – Me dê uma cadeira. (Margarida vai buscar uma cadeira; ela diz baixo à Carolina) Preciso falar-lhe.
Carolina – Sim!
Margarida (dando a cadeira) – Aqui está.
Helena – Obrigada. (Senta-se) Realmente esta menina tem muita habilidade.
Carolina – Mãezinha, Vm. vai lá dentro buscar a minha tesoura? Esqueceu-me abrir uma casa.
Margarida – Não queres a minha?
Carolina – Não; está muito cega.
Margarida – Onde guardaste a tua?
Carolina – No cestinho da costura. (Margarida sai à esquerda. Carolina tira do bolso a tesoura e mostra sorrindo a Helena)
CENA VII (Helena e Carolina)
Helena – Eu percebi!...
Carolina – Mas... Por que ele não veio?
Helena – É sobre isto mesmo que lhe quero falar. O Ribeiro mandou dizer-lhe...
Carolina – O quê?...
Helena – Que deseja vê-la a sós.
Carolina – Como?
Helena – Escute. Às nove horas ele passará por aqui e lhe falará por entre a rótula.
Carolina – Para quê?
Helena – Está apaixonado loucamente por você; quer falar-lhe; não há senão este meio.
Carolina – Podia ter vindo hoje com a senhora, como costuma. Era melhor.
Helena – O amor não se contenta com estes olhares a furto e esses apertos de mão às escondidas.
Carolina – Mas eu tenho medo. Meu pai pode descobrir; se ele soubesse!...
Helena – Qual! É um instante! O Ribeiro bate três pancadas na rótula; é o sinal.
Carolina – Não! Não! Diga a ele...
Helena – Não diga nada; não me acredita, e vem. Se não falar-lhe, nunca mais voltará.
Carolina – Então deixará de amar-me!...
Helena – E de quem será a culpa?
Carolina – Mas exige uma coisa impossível.
Helena – Não há impossíveis para o amor. Pense bem; lembre-se que ele tem uma paixão...
Carolina – Aí vem mãezinha!
CENA VIII
(As mesmas, Margarida e Araújo)
Margarida – Não achei, Carolina; procurei tudo.
Helena – Está bom; já não é preciso. Mando fazer isto em casa pela minha preta.
Araújo (Entrando pelo fundo com um colarinho postiço na mão) – A senhora me apronta este colarinho?
Margarida – A esta hora, Sr. Araújo?
Araújo – Que quer que lhe faça? Um caixeiro só tem de seu as noites. Agora mesmo chego do armarinho, e ainda foi preciso que o amo desse licença.
Margarida – Pois deixe ficar, que amanhã cedo está pronto.
Araújo – Amanhã?... E como hei de ir hoje ao baile da Vestal?
Carolina – Ah!... o senhor vai ao baile?
Araújo – Então pensa que por ser caixeiro não freqüento a alta sociedade? Cá está o convite... Mas o colarinho? Ande, Sra. Margarida.
Margarida – Lavar e engomar hoje mesmo?
Araújo – Para as oito horas. Não quero perder nem uma quadrilha. As valsas pouco me importam...
Margarida – O senhor dá-me sempre cada maçada!...
Araújo – Deixe estar que um dia destes trago-lhe uma caixinha de agulhas. Margarida – Veremos.
CENA IX
(Araújo, Helena e Carolina) Carolina, na janela.
Helena – Como está Sr. Araújo?
Araújo – A senhora por aqui... É novidade.
Helena – Também
o senhor.
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.