Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Plácido e Luciano
Plácido – Estamos sós, Luciano, e eu confesso que estou ansioso por saber que espécie de confidência me queres fazer.
Luciano – Meu pai, é força que eu lhe dirija uma pergunta, que aliás considero desnecessária. Oh! Por Deus o juro: não duvido, nem duvidei jamais da única resposta que vossa mercê vai dar-me; mas... julgou-se...é essencial que eu a ouça da sua boca.
Plácido – Excitas a minha curiosidade e começas a desassossegar-me: Fala. Luciano – Algum dia... vossa mercê se pronunciou contra o Príncipe e contra a causa do Brasil?...Mandou alguma vez socorros ou comunicações a Avilez quando ele esteve na Praia Grande, ou o aconselhou a resistir às ordens do Príncipe? Plácido – Luciano! És tu que me devias fazer uma tal pergunta?
Luciano – Não...não...eu bem o sei, eu o conheço, meu pai sinto que o ofendo: mas aceite que era indispensável que eu lhe fizesse esta pergunta, como é indispensável que eu ouça um – não – pronunciado pela sua boca.
Plácido – É possível!
Luciano – Oh! Responda-me por compaixão!
Plácido – Pois bem: pela minha honra, pela honra de minha mulher, pela pureza de minha filha, eu te afirmo que não.
Luciano – Obrigado, meu pai! Mil vezes obrigado! Nestas épocas violentas, nestes dias de crise, há às vezes quem duvide da consciência mais pura e da probidade mais ilibada; oh! mas a pátria de seus filhos é também a sua pátria e...oh meu Deus!
Que imensa felicidade me inunda o coração! (Abraça Plácido)
Plácido – Sim! Eu amo o Brasil, como o mais patriota dos seus filhos!
Luciano – Tocamos a hora suprema, meu pai! O Príncipe chegará de São Paulo talvez hoje mesmo; a última carta vai ser jogada, e o Brasil será contado entre as nações do mundo. Oh! sinto abrasar-me a chama do patriotismo! O Grito de liberdade e da independência soa já em meus ouvidos e em meu coração! Meu pai, um dia de glória vai brilhar para a minha pátria, e se combate houver, e se nele sucumbir teu filho, não o lamentes, porque morrerei a morte dos bravos, defendendo a mais santa das causas e mais bela das pátrias!
Plácido – Sim! Avante! Avante! avante!(Abraçam-se; soam trombetas) Soam de novo as trombetas...Que será?
Luciano – A trombeta belicosa
Infame, maldito seja
Quem recusa combater.
Da liberdade da pátria
A causa é sagrada e bela; É honra vencer com ela, Honra por ela morrer.
Quebrar da pátria o jugo É dos heróis a glória: Às armas, brasileiros; A morte ou a vitória!
CENA IV
Plácido (Só) – Como é sublime o grito do patriotismo! Mas esta pergunta que Luciano acaba de fazer-me envolve talvez algum sinistro mistério!...embora! tenho a minha consciência tranqüila; para longe as idéias tristes: o aniversário natalício da minha Afonsina seja todo de alegria e de ventura...e é já tempo de revelar o segredo da caixa e da sala: Leonídia! Afonsina! Então que é isso?...querem ficar lá dentro dia inteiro?
CENA V
Plácido, Leonídia e Afonsina
Leonídia – Plácido, Afonsina ainda não me deixou sossegar um instante, e quer por força que eu lhe revele o nosso segredo.
Plácido – Tens então muita vontade de saber o que encerra esta caixa e que se acha naquela sala?
Afonsina – Oh! muita, meu pai... e também para martírio já é bastante.
Plácido – Pois bem: eis aqui a chave da sala; abre a porta e olha. (Dá a chave,
Afonsina vai ver) Que vês?...
Afonsina – Um altar!...para que se armou aqui um altar?
Plácido (O mesmo) – Abre agora a caixa; aqui tens a chave.
Afonsina – Ah!
Leonídia – Que encontraste na caixa, Afonsina!...
Afonsina – Um vestido...um véu...e uma coroa de noiva...
Leonídia – E não sabes a quem devem pertencer?...
Afonsina – Minha mãe ...eu não sei...
Plácido – Afonsina, minha Afonsina: não te lembras que ao receber cheio de júbilo o pedido de tua mão, que nos fez Luciano, eu exigi que o dia do casamento fosse marcado por mim?...Pois esse dia feliz é hoje, hoje, que também é o dia dos teus anos e que será o mais belo da minha vida! Afonsina – Meu pai!...minha mãe!...
Leonídia – Estás contente, Afonsina?...Oh! mas atua alegria não excede a que enche o coração de tua mãe!...
Prudêncio (Dentro) – Então já está descoberto o segredo?... Pode-se cumprimentar a noiva com todos os ff e rr do estilo?
Plácido – Sim ...sim...Afonsina já abriu a caixa e a sala.
Prudêncio – em tal caso, avanço com o meu batalhão...avante, camaradas!
CENA VI
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Amor e Pátria. [S.l.]: [s.n.], s.d.. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16668 . Acesso em: 29 dez. 2025.