Por Mário de Andrade (1947)
A leitura continuou, e as meninas se engolfaram nela, num átimo esquecidas do incidente que não rendera bastante. Mas Mademoiselle eis que fechava o seu livro de sopetão e o põe com ruído na mesinha. A olharam numa surpresa que logo se transformou em assombro quando viram a cara da mestra. Naquela calma veludosa de paz Mademoiselle estava completamente transtornada, olho em desvario pulando de Lúcia pra Alba, de Alba pra Lúcia, boca entreaberta num esgar, as rugas fantasistamente se mexendo.
— Laissez votre livre de coté, mes enfants! Là, sur le bane!
As meninas obedeceram maquinais, sem vontade nenhuma de rir, preocupadas. Mademoiselle afinal exclamava, cheia da vitória:
— Et bien!?...
Não sabiam o que se passava, já meio hirtas agora, garantidas que si se olhassem não agüentavam, caíam na gargalhada.
— Et bien! Mademoiselle as incitava no triunfo: Avez-vous bien réfléchi?
— Je ne sais...
— Taisez-vous! Dites! Vous voilà la main dans la main, tout à fait comme (mastigava sílaba por sílaba, no desprezo colérico) comme ces deux personnages qui se promenaient tout à l’heure, dites! Qu’est-ce que vous sentez, dites!
— Mais...
— Taisez-vous!
Alba menos capaz, acabou com aquela bobagem:
— Moi, je ne sens rien.
— Et vous, Lúcia! dites! Vous êtes plus agée que votre soeur, vous devez sentir quelquer chose! triunfante, triunfante.
Mas Lúcia, um bocado irritada, se desprendeu da irmã, dando de ombros. Irritada apenas? Lhe seria impossível se compreender naquela desilusão apreensiva, que a deixava numa vaga esperança de chorar. Mademoiselle estava soberba, muito esguiazinha, magistral. Revelou, se sentindo absolutamente dominadora:
— Voilà. On ne sent rien, vous savez! II y a des gens ignorants qui font ces cochonneries inutiles, mais on ne sent rien, mes enfants, on ne sent absolum- ment rien. Retournons à notre géographie.
De-noite, quando se arranjavam pra deitar, entrava o ar pesado, oleaginoso, de rosas. Alba se olhou muito no espelho, sentada. Estava velha, com medo. Suspirou fundo e de repente se enforcou com ambas as mãos. Veio descendo com elas pelo corpo, pelos seios nascentes, como naquela página do “Médecin malgré lui” em que Mademoiselle escrevera em vermelho “page condamnée” pra que as alunas não lessem. Lúcia escutando o suspiro, chegou-se pra irmã. Alba recusou vivo o contato, mas lhe veio a frase diária, pra se desculpar da grosseria:
— Me sinto freudiana, hoje... Acho que vou sonhar tarlatanagens.
Lúcia censurou:
— Olhe, Alba, você carece acabar com essas histórias... Você anda muito complexenta demais.
Mas perdoou logo. Deu um piparote nos cabelos pesados da mana:
— Cochonneries inutiles.
Caíram na risada as duas. E tanto as cochonneries como as cochonerias tarlatanaram daí em diante no arrulho dúbio delas.
Mademoiselle ficara tonta com a referência de Alba ao casal de operários. Recordou imediatamente a cena de que se saíra com tanto brilhantismo, imaginava. Pois Alba compreendera que o que faziam os dois namorados eram “cochonneries inutiles”! Estava desnorteada porque “les cochonneries ne sont pas inutiles, evidemment!” reconhecia no íntimo, imaginando como sair da enrascada. Enxugou lerdo o nariz. Desistiu. Confessou devagar, pesando as palavras, conciliatória:
— Ma chère enfanL.. il ne faut pas dire des choses inutiles que se sont des cochonneries, par exemple!.... Les cochonneries sont.. des cochonneries! E exaltada de repente, se sacudindo toda: S’embrasser sur la bouche, voilà une cochonnerie! Une chair vive contre une chair vive, pxxx!
Se ergueu pra partir. Tinha que ir à farmácia homeopática, tomar dois bondes, e o “Angélica” dava uma volta enorme até chegar na praça da Sé, se desculpou. Aquela evocação bruta de carnes vibrantes se ajuntando a escorraçava aos repelões. Enxugou o nariz.
(continua...)
ANDRADE, Mário de. Atrás da catedral de Ruão. In: ANDRADE, Mário de. Contos novos. São Paulo: Martins, 1947.