Por Gregório de Matos (1969)
1 Betica: a vossa charola
levam-na quatro galantes
discretos, ricos, brilhantes
peanhas da vossa sola:
qualquer deles acrisola
o vosso trono eminente;
mas tem reparado a gente,
que é muito para sentir,
que um para o Norte quer ir,
e que outro para o Poente.
2 Um por não perder o abrigo,
vos quer levar para fora,
outro por vos ver cad'hora,
vos quer ter aqui consigo:
este diz, "há de ir comigo":
aquele: "aqui se há de estar":
e é muito para chorar,
que um andor tão buliçoso
sempre o tenham duvidoso
entre partir, e ficar.
3 A mim me tem parecido,
por fugir pesares artos,
que um algoz vos faça em quartos,
que o tendes bem merecido:
e que cada qual Cupido,
o que leva, e o que atraca,
da vossa carne velhaca
leve um quarto por partilha,
e dos quartos a quadrilha
como irmãmente da vaca.
4 Para repartir-vos bem
entre os quatro quadrilheiros,
tirem-se os quartos inteiros
soã, coxão, alcatra, acém:
e se entre eles houver quem
vos dê mais prazer, e gosto,
esse leve o entrecosto,
a alcatra, quem bem vos quer,
o acém, o que mais vos der,
e o coxão a todo o posto.
A MESMA APPARECENDO NO DIA DAS VIRGENS VESTIDA DE LUTO.
Betica: que dó é esse,
de que por Virgens te vestes?
acaso é, que dó tivestes,
de que tal bem se perdesse?
compre-te, quem te conhece,
que eu vendo-te assim vestida
com dó, te vejo saída,
e creio, que já és tal,
que cores te fazem mal,
e honesto só te dá vida.
MATOS, Gregório de. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1969.