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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Levemos isto mais moderadamente, Sr. Barrosas, - admoestou o administrador. – ora diga-me, mulher, foi vossemecê mesma que vendeu os brilhantes?

Demorou-se Vitorina em responder:

― Fui, sim, meu senhor.

― A quem?

Repetiu-se a mesma tardança na resposta.

― A quem os vendeu? Aos ourives Mourões? – repetiu o funcionário.

― Sim, senhor. ― Todos?

― Sim, senhor.

― Está vossemecê mentindo. Os Mourões compraram três pedras a uma mulher, que provavelmente era vossemecê, e duas a um vizinho. Como explica vossemecê esta verdade com a sua mentira?

A mulher abafava com soluços.

― Seja verdadeira; vossemecê não roubou os brilhantes; vendeu-os por ordem de sua ama...

― Não, senhor – acudiu a criada com veemência.

― Não me desminta, que logo vai ser sua ama interrogada na sua presença, e ela mesma já disse ao Sr. Fialho que vossemecê não furtou a pulseira.

― O que eu quero – intermeteu-se o brasileiro – é saber a quem tua ama dava o dinheiro.

― Isso é que eu não quero saber enquanto sua senhora se não queixar de que foi lograda fraudulantamente – emendou o administrador do bairro. – Já disse a vossa senhoria que esta repartição judiciária não é confessionário, nem entende com a moralidade dos atos domésticos, entre casados, enquanto eles se não queixam competentemente. Da minha competência é saber como hei de enviar esta mulher ao juízo criminal. Ela teima que roubou os brilhantes; a esposa de vossa senhoria declara que os mandou vender. O meu juízo está feito; mas...

― Então qual é o juízo do Sr. Administrador? – interrompeu o queixoso. ― É o juízo do Sr. Fialho.

― O meu?!

― Sim: o senhor diz que foi sua esposa quem mandou esta ou outra mulher vender as pedras; eu digo o mesmo.

― Mas quem me há de a mim dizer o caminho que levou o dinheiro? Um conto seiscentos e...

― Sua senhora, se quiser.

― Mas esta mulher sabe-o.

― Vossemecê sabe-o, mulher? - perguntou a autoridade sorrindo.

― O quê, meu senhor?

― Sabe o que aquele senhor deseja saber?

― Sabes a quem tua ama dava o dinheiro dos brilhantes? – perguntou o amo com estrondosos berros.

― Que brilhantes?

― Os brilhantes que ela te mandava vender.

― Não me mandou vender nada.

― Então roubaste-los tu?

― Sim, senhor.

Hermenegildo sobrepôs os braços um no outro, transversalmente apoiados no estômago, e começou a dar com eles de modo que tiravam um som de timpanites das cavernas subjacentes.

― Já viram pouca vergonha deste feitio? – gritava ele. – Veja vossa senhora se isto não é para endoudecer um homem!

E, levantando-se com prodigiosa rapidez, exclamou:

― Vou consultar, os meus amigos sobre o que devo fazer; vossa senhoria faça a sua obrigação. O negócio é muito sério. Hei de sair com honra desta tramóia. Sou um homem de bem. Quem quiser saber quem é Hermenegildo Fialho Barrosas, pergunte-o aí na praça do comércio do Porto.

― Sei que é honrado capitalista, Sr. Fialho! Quem lhe nega as suas excelentes qualidades?

― Vossa senhoria parece que está disposto a favor dos criminosos! – retorquiu o ricaço, esbofeteando uma mosca na testa.

― Quem são aqui os criminosos?

― Não sei! Não entendo esta balbúrdia!

Sua senhora diz que mandara vender os brilhantes. Quer que ela seja enviada ao juízo criminal com o labéu de ladra? – volveu o administrador agastado.

― Não quero isso! Quero saber quem recebeu o dinheiro.

― Não posso esclarecê-lo.

― O dinheiro gastei-o eu – repetiu Vitorina.

― É o que vamos ver.

Disse, e tangeu de novo a campainha o funcionário, mandando o oficial que intimasse a Sr.ª D. Ângela a comparecer na administração.

― que vem ela cá fazer?! – exclamou Vitorina com aflição. – Minha ama não tem que fazer nesta casa! ― Cá se avenham! – disse o brasileiro, e saiu em cata dos seus amigos.

III RETRATOS DO NATURAL

Os amigos do Sr. Fialho, àquela hora, estavam em grupo na calçada dos Clérigos, à porta do imaculado capitalista.

Hermenegildo chamou-os à sala do primeiro andar daquele prestante amigo dos brasileiros, e falou deste teor:

― Meus amigos velhos! Srs. Atanásio José da Silva, Pantaleão Mendes Guimarães e Joaquim Antônio Bernardo!...

Interrompa-se a apóstrofe, e desenhemos as proeminências morais características destes sujeitos invocados a conferir e alvidrar num pleito de honra.

(continua...)

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